“Amnésia”, de Christopher Nolan (Post 1/5)

Zangado

Um pouco de Leonard


Nas sequências em preto e branco, o telefone toca pela primeira vez, e toca outras vezes dentro de 27 minutos, que é o tempo de duração de todas as cenas sem cor, se estivem juntas no filme Memento, que no Brasil ganhou o nome contrário, Amnésia. Durante sua fala ao telefone, Leonard (ator Guy Pearce)  faz um monólogo, que mais parece um confessionário; ele vai contando as coisas. É um tipo de ação que também aproxima de um tratamento psicoterápico. Percebemos que sua fala é de quem faz uma reflexão sobre si mesmo e a problemática que o envolve: Ninguém acredita em mim; Não sei de nada; Fico zangado sem saber porque; Sentir-se culpado; Fazer coisas e não lembrar; e conclui que se enganou no diagnóstico que fez de Sammy (Stephen Tobolowsky). O que fala de si não conhece a pessoa que está do outro lado, não sabe nada de quem o escuta e o estimula a falar…


Inicialmente, o espaço onde está o personagem não tem cor. Sentado na cama, que poderia ser um divã, Leonard olha para os lados querendo saber que espaço é aquele à sua volta. Esse ambiente nos aproxima daquele homem em um ambiente íntimo, um quarto. Ele se revela em uma confusão mental que o faz esquecer coisas que acabou de fazer. Na sequência do quarto, ele não reconhece o espaço e não entende o tempo decorrido, cujas referências são básicas para situarmos no mundo. Aquele espaço sem cor é limitado, e nos dá informações de um personagem solitário. Um guarda-roupa cheio de cabides, sem roupa, parece nos mostrar que a aparência passa longe de seus objetivos. Essa informação associada à posse de um terno de marca e um carro milionário, nos faz perceber a sua indiferença com relação aos objetos que passa a usufruir, de forma sem sentido, o que nos leva a pensar que há uma representação, no sentido figurado, uma metáfora.


Naquele instante em que Leonard passa a usar a roupa de Jimmy (Larry Holden), não é para assumir a personalidade deste ou se passar por ele, ainda que diga que prefere ser tomado por morto a ser tomado por assassino. Ninguém o toma por morto. Apenas o destino o coloca alinhado com pessoas inescrupulosas que se aproveitam dele.


Ocorre uma mudança de atitude do protagonista. O começo da mudança é após a conversa com Teddy (Joe Pantoliano), depois da morte de Jimmy. Leonard começa a suspeitar de Teddy e passa a não se submeter mais aos caprichos dele. O outro não volta a ficar mais dentro do quarto recebendo as ordens de Teddy, mas mantém seu objetivo e passa a agir de acordo com sua percepção. A mudança de Leonard é evidente quando ele queima as fotos, sua e de Jimmy morto; são dois elementos que elimina de sua memória, que ele não quer mais lembrar. Até então, tudo que ele fazia era para reavivar sua memória, e nesse momento ele faz o contrário.

O filme, o que vejo 

Na versão vista nos cinemas, de trás para frente, as cenas em preto e branco obedecem uma linearidade de tempo, isto é, as ações acontecem em ordem normal, e estas cenas em preto e branco foram interceptadas, cortadas para inserirem as cenas em cores. A última inserção é uma fusão do preto e branco para cores, quando Leonard olha a foto que tirou de Jimmy morto. As cenas coloridas formam-se em blocos, que individualmente podem ser lidos normalmente, mas, em relação aos demais, há inversão de ordem. Estes blocos de cenas são colocados de forma explicativa, ou seja, como se fossem duas orações, como na gramática, que os fatos que acontecem na primeira, são explicados na segunda, como se sabe, de modo que uma sequência explica a outra. Da forma inversa, o filme vai explicando-se. Mas não explica tudo.


(Frames e Post 1/5 do filme Amnésia, original Memento, USA, 2000, diretor e roteiro adaptado Christopher Nolan) 

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