Dor e Gloria

Intrometer no EU de alguém é uma ousadia. Este EU de Almodóvar me levou ao mEU, e logo após o filme, dei espontaneamente um abraço em minha mãe. Esta, diferente da mãe de Almodóvar, não quer me acompanhar para outra cidade, não quer ir para onde também moro espiritualmente e às vezes fisicamente. Tenho que respeitar. Assim, quando viajo, ela fica com minha irmã, pois, para a casa desta ela vai e gosta, por ela nem saia mais de lá.

Mas, o filme, embora ressalte a grande influência da mãe na sua vida, como é de costume em outros filmes do diretor, não é esse o enfoque principal.

Na história, o sujeito se abre e revela o que este homem que não se mostra pelas aparências passa ao longo de alguns anos. Beirando os sessenta anos de idade, o diretor e escritor, personagem na ficção, se entrega ao que a vida lhe trouxe de enfermidades no decorrer do tempo.

Desencantado da vida é pouco. Ele está angustiado, isolado, ensimesmado. E topa a oferta do “amigo” para se afundar um pouco mais.

As locações do filme são excepcionais. As casas são cheias de histórias pelas paredes e estantes. O personagem deprimido é um homem de sucesso. Vive materialmente bem, tem sua empregada e ainda tem uma amiga!frame

Salvador vive o presente que se mistura com o passado. Parece que nunca relaxa, está sempre introspectivo. É um escritor, é um criador. É um cineasta.  Mas, deixou de buscar a felicidade, até que…

Sim, o passado encontra o presente. O que ficou engasgado, mutilando suas frases, sua mobilidade, enxaquecando sua cabeça, vem e diz tudo que ele precisava ouvir.

Ele passa a se reconhecer mais, encara a vida e procura o que qualquer ser humano busca para “viver com qualidade”.

Ana Muniz

Imagem: frame do filme.

Dor e Gloria (original “Dolor y Gloria”) Espanha, França, 2019, drama, 1h 53min. Diretor e Roteirista Pedro Almodóvar. Atuam: Antonio Banderas, Alberto Crespo e outros.

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