Tudo que eu disser Shirley vai achar que é bobagem. Ela segue a sua cabeça, que nem sempre está no centro. Provavelmente, suas saídas para as beiradas pode ser um meio de deparar com o termo exato, a sequência que encaixa na história e faça explodir o enredo.

O filme conta a história de Shirley, uma escritora, nos anos entre 1950/1960, em um momento de suspensão criativa. O que ela faz para romper as barreiras? Nada. Não deseja fazer nada, mas o marido faz. Acadêmico, ele é uma espécie de Don Juan nos bastidores da faculdade de artes, no estado americano de Vermont. Ele é ainda um tanto egoísta e traidor; sempre está bem humorado, mas controlador que é, arruma uma solução ao convidar um casal de estudantes para passar uns tempos com eles e cobrir os dois em algumas tarefas.
Os jovens aceitam a proposta, mesmo indecente. Recém-casados, ela nas primeiras semanas de gravidez, e ele mestrando, louco para ter a sua dissertação aprovada pelo anfitrião, acharam que aquela seria uma boa oportunidade.
O fato é que esta é uma saída para a diretora colocar os seus planos em prática. A chegada do casal nos faz adentrar àquela casa que por fora é uma coisa e por dentro é outra.
A mulher, Rosie, assume e passa a maior parte do tempo nos afazeres domésticos e em pouco tempo se vê muito próxima de Shirley e passa a interagir com ela e criam uma relação muito estreita.
É evidente que, enquanto o marido controla Shirley, esta passa a controlar Rosie.
Sim, Shirley tem um objetivo: escrever. Desta vez é uma adaptação de um fato real. Então, o que se passa na mente da escritora salta à tela. A nova amiga torna-se imprescindível no desenvolvimento da trama. Enquanto ela usa Rosie para criar as características de sua personagem Paula, a história vai-se revelando e podemos perceber que entre o real e a ficção os laços são bem estreitos.
Bem, até aqui não usei nada de minhas anotações. Deixe-me ver…
A história mostra a posição desconfortável da mulher diante do casamento, uma vez que “naquela época” as traições eram praticamente corriqueiras. No geral, a mulher sofria calada para continuar ao lado do homem amado. Observe o diálogo em que é evidente a ironia de Shirley:
Rosie
Depois do bebê, Fred disse que posso voltar a estudar.
Shirley
Ele está te permitindo… Nossa!
No início, no trem, Rosie lê “A Loteria” da autora Shirley e comenta um trecho com o companheiro ao lado: “Eles a apedrejam”. A feição dela é de quem se envolveu com a história e pela expressão e ação seguinte, a escrita a deixa excitada.
Logo em seguida passam por uma rua onde meninos jogam pedras. Ela olha a cena e depois sorri para o namorado. Talvez insinue que algo tenha sido bom.
Mas o que isso poderia me dizer nesta parte? Para mim, soa que, como ela pareceu indignada quando disse “eles a apedrejam”, e em seguida se vê excitada, eu observo que ela deixa de lado a fatalidade do fato para valorizar a forma da escrita que lhe proporciona prazer. Embora adiante ela revela para a escritora que ao ler se sentiu “emocionalmente horrível”. É possível que esta revelação seja mais um elemento intrigante, pois a história é cheia de vaivém e o que se espera geralmente não acontece.
Ana Muniz
Numa breve investigação eu li que existiu o escritor americano Shirley Hardie Jackson, mas este foi apenas uma inspiração. O filme é de ficção.
Imagens: frames do filme.
Ana Muniz
Shirley (Shirley), EUA, Drama biográfico, 107 min. Diretora: Josephine Decker; Roteiro de Sarah Gubbins, baseado no romance de Susan Scarf Merrell.
Atores principais: Elisabeth Moss, Michael Stuhlbarg, Odessa Young, Logan Lerman. 107 minutos
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