Down by law ou Daunbailó, de Jim Jarmusch

A Introdução

O refrão da música que dá fundo sonoro às imagens na introdução diz: “Hey little bird, fly away home / Your house is on fire, your children are alone” (Ei, passarinho, voe para longe de casa / Sua casa está pegando fogo, suas crianças estão sozinhas).
O que seria da ficção se não houvessem eventos para se criar através deles outras formas de expressão, baseados no que nós internalizamos?

O filmeintr começa apresentando a cidade a partir de um cemitério, um carro funerário, e prossegue mostrando casas fechadas, como se fosse uma sequência única, isto é, na sutileza do corte do plano em movimento não há uma rua que separa os túmulos e as primeiras casas. Estas fechadas, não se vê ninguém. A música cantada por Tom Waits dá um ritmo mórbido às cenas. Após estas informações, o diretor prossegue e vemos ruas perpendiculares e escassas pessoas, aparentemente desocupadas.

Cabe lembrar que a cidade cenário, Nova Orleans, é diferenciada por sua vibrante cultura negra, e que entre os milhares de escravos comercializados ali no século XIX, a comunidade livre teve grandes êxitos na vida. Até o evento do filme, em várias anos anteriores a cidade foi atingida por furacões, causando prejuízos parciais. Além de desastres naturais, as décadas de 1900 acusam conflitos raciais e pobreza, que assinalam a sua história.

jackAinda no externo, a câmera seguindo sempre para a esquerda do espectador é interrompida. Dentro do quarto, Jack (John Lurie) acorda ao lado de uma mulher, enquanto outra está na sacada vendo o tempo passar. Este pequeno trecho nos dá as primeiras impressões deste protagonista, nada denso abrange as cenas, uma inércia, apenas isso é que devemos perceber, o marasmo.
Ao som da mesma música, a câmera, de novo na externa, segue pelo lado oposto, passa por policiais que vistoriam dois homens, e mais à frente outro caminha calmamente pela calçada.
no-parkingSomam-se imagens da periferia da cidade, carros, sucatas, destroços, destruição. O escrito na porta da garagem, “No parking”, está desolado e inútil junto ao capim formado na beira da rua vazia.zack Esse trajeto nos leva a Zack (Tom Waits), outro principal que surge junto com frases filosóficas escritas na parede de um quartinho, onde dorme sua namorada.

Jim Jarmusch não tem pressa, está no inverso do cinema clássico, onde os cortes agilizam as ações. Desta forma, o filme vai se deter nos instantes em que cada personagem se envolve em situações criadas por outros e cada um dos dois protagonistas se colocam passivos diante do que vai surgindo ou flutuantes na maré.

Fora do quartinho, o movimento de câmera de volta ao exterior percorre a mesma esquerda, as casas fechadas e sem pessoas e uma mulher negra que passa, lugares abandonados, destruídos. Marginais usando drogas? Fechados em um pátio escolar, crianças brincam, é o contraditório do clima.
Passam alguns sobrados e a introdução termina.

Por que escolhi Down by low?

Para quem conhece o lugar, identifica a cidade de Nova Orleans ou New Orleans nas cenas externas, e se obter mais informações pode acreditar que Jack e Zack estão em um bairro francês de uma cidade relativamente mortificada. Cidade berço do dixieland, estilo de jazz, uma mistura da música africana e europeia, onde podemos encontrar parte da influência musical do artista Tom Waits, ator e cantor da trilha sonora de Down by Law.
Mas, por que escolhi este filme para comentar agora? Depois de ler as primeiras indicações da programação da Mostra 40a. (2016), eu vi o nome de Jamursch incluído, e me lembrei deste filme que assisti há muito tempo, mas o que ficou mais na memória foi a fotografia em algumas cenas da fuga na floresta. Nessa época eu comprava todos os CDs do Tom Waits e adorava ver filmes do Win Wenders.

Poesia e fotografia

jack-nada-esta-aquiTudo pode virar poesia, qualquer frase pode se tornar uma melodia: “Você também não existe / Muros não existem / Nem o chão / A cadeia não está aqui / Nem estão aqui os beliches / As trancas de ferro não estão aqui / Nada está realmente aqui / Nada está aqui.”
estradaO efeito visual é poético e isso é o que reitera Robby Müller, o responsável pela fotografia, que já nos havia presenteado com seu trabalhado no filme Paris, Texas (1984, Win Wenders). Mas a poesia também está no texto, nas referências trazidas pelo italiano Roberto Benigni, através de seu personagem Roberto, que formará um trio com Jack e Zack, sem o qual o filme não aconteceria, ele toma conta a partir de certo momento, é ele que conduz as ações, provoca situações, encaminha no descaminho e surpreende.

Ficção por ficção…

Laurette tem uma crise nervosa no relacionamento com Zack e acusa a apatia do rapaz, disc-jóquei desempregado: “Não se pode viver desse jeito… Está cavando sua tumba… De que tem tanto medo?” Ele não reage e este é o mesmo comportamento adotado por Jack diante de Bobbie que o provoca. tw-no-carroZack poderia voltar para Nova York ou Detroit ou Baltimore, diz a namorada… Ele escuta calado, mas quando está dirigindo o carro que o levará para a cadeia, diz: “Pra Detroit é que eu não volto”.
Qual seria a relação desta cidade com a vida desta pessoa fictícia? O diretor não segue parâmetros convencionais, se seguisse, Nicoletta do restaurante em Louisiana, saberia dizer exatamente tal localização e não daria informação errada, a não ser que fosse uma armadilha…
Cada um no seu papel representam um jogo simbólico.

Pensando na construção de personagem… 

Ora, por que Zack não voltaria a Detroit? Por que Detroit? Teria nascido lá? Então, fiz uma breve investigação e vi que em Detroit no ano de 1967 houve uma batida policial em um clube situado em um gueto negro. Foram mortas dezenas de pessoas, a maioria negras. Isso provocou que grande maioria dos habitantes abandonasse a cidade. Os empreendimentos imobiliários estagnaram. As pessoas que permaneceram ali eram negros pobres e raivosos. Esta população expandiu e tomou os lugares administrativos. Mas, a falta de investimentos no local aumentou o desemprego e o aspecto da cidade ficou cada vez pior, casas desocupadas, muito mato crescendo nas vias, carros abandonados, em pedaços… Uma cidade decadente enfrentando graves problemas sociais.
Mais próximo do ano de produção do filme, no ano de 1984, esta cidade registrou centenas de prédios incendiados, entre casas abandonadas, edifícios e fábricas. Um incêndio que durou dias.
Down by Law não remete a esses fatos, mas eu posso pensar que Zack está entre aqueles que teve que abandonar a cidade de Detroit devido à violência que se instalou ali e a ausência de sustentação do trabalho. Mas, essa parte biográfica não aparece no filme, está fora do foco, não interessa ao urdimento dado por Jim, é algo que está na transversal do relato. Ao mesmo tempo, no percurso, o diretor não se importa com o passado de seus personagens e nem com o futuro. Este, afinal, é dado pela alegoria do incerto “rumo ao desconhecido.”
Por outro lado, aquele bairro de Nova Orleans me faz lembrar de Detroit, a partir das descrições que coloquei acima e das tomadas cinematográficas de Jarmusch. A edição das imagens do cemitério unidas às das casas revela uma cidade praticamente morta. Não, porque ainda nela há pessoas. Quais pessoas? Alguns negros e alguns brancos que perambulam pelas ruas, em grupos ou sós, provavelmente sem ter o que fazer…

Observações à parte

Ao rever certas cenas de Zack e Jack ocorreu-me outro filme chamado 1900 (Novecento, Bernardo Bertolucci, 1976). Neste, dois personagens foram praticamente criados juntos e se separaram, mas ao se encontrarem quando adultos viviam brigando, se pegavam e rolavam pelo chão. Em Daunbailó, os dois personagens se conhecem já adultos, em uma cela de cadeia. Aparentemente opostos, mas, pensando melhor, suponho que são dois negativos, que sendo iguais se repelem: Vivem em desacordo e brigam frequentemente, também rolam pelo chão…
billieFiz outra analogia em uma postagem anterior entre duas cenas. Aqui, vou somar uma cena deste filme àquelas duas: As anteriores eram: Cordélia, do filme Rei Lear (1987, J. L. Godard), cuja imagem comparei com Elle, do filme Cópia Fiel (2010, Abbas Kiarostami). Ao lado deste parágrafo está o frame com Bobbie (Billie Neal), cuja intenção é apontar para os instantes paralelos de cada personagem em momentos distintos de ausência de ação.
Podemos encontrar influências de grandes cineastas, evidentes ou não, em qualquer filme espetacular. Ainda que em pequenos detalhes os sinais surgem dentro da obra. Cada realizador faz ao seu modo e cada espectador vê de acordo com suas experiências.

Ana Muniz

Imagens: frames do filme; Fontes / Cidade de Detroit: N.Y.T.; New Orleans: en.whikipedia.

Daunbailó (original “Down by law”). USA | West Germany, 1986, 1h 47min, Cor e preto e branco. Drama. Direção e Roteiro: Jim Jarmusch Atuam: Tom Waits, John Lurie, Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Ellen Barkin, Billie Neal e outros.

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