Os primeiros sete minutos –



Duas mulheres estão sentadas na sala de um chalé isolado nos Alpes Franceses. Uma delas é Sandra, escritora. A outra é Zoé, uma estudante que foi até ali para entrevistá-la.
A conversa começa, mas uma música alta e provocativa, vinda do andar de cima, invade o ambiente e torna difícil a comunicação entre elas.
A expressão de Sandra revela o incômodo. Ainda assim, ela parece interessada em continuar a entrevista.
O barulho cria uma circunstância desagradável, interrompe a aproximação entre as duas e, ao mesmo tempo, produz um clima de silêncio e olhares penetrantes. A entrevista acaba sendo adiada.
Sandra deixa claro que o problema é a música colocada pelo marido. Mas seria apenas a música o incômodo? Ou seria o próprio marido?
Se esse desconforto é apresentado logo no início do filme, provavelmente terá algum desdobramento. E como Sandra o expressa? Pelo gesto, não pela fala.
Ao dizer que a entrevista deveria ter sido realizada antes e em outro lugar, ela aponta para o alto, na direção de onde vem o barulho. Pouco depois, repete o gesto ao afirmar, com um riso tenso, que tempo não é o problema.
O problema parece ser físico e estar ali, no andar superior.
Seria o marido o problema?
A conversa entre Sandra e Zoé também nos conduz a outra questão: o que fazemos quando encontramos alguém que desejamos transformar em personagem?
Precisamos conhecê-lo.
Ou, pelo menos, precisamos acreditar que podemos conhecê-lo.
Como escolhemos uma personagem? Por que o escolhemos? Algo nela nos chama a atenção, ainda que seja uma característica mínima, um gesto, uma forma de olhar ou uma maneira de falar. O restante investigamos, exploramos ou inventamos.
Durante a entrevista, surgem perguntas sobre a escrita e sobre a necessidade — ou não — de viver determinado acontecimento para transformá-lo em ficção. Sandra deixa claro que não escrevemos somente sobre experiências próprias.
Ela utiliza Zoé como exemplo. Não a conhece, mas já considera a possibilidade de colocá-la em um livro. Para fazer isso, porém, precisaria conhecê-la.
Nesse momento, a entrevista começa a se inverter. A entrevistada deseja entrevistar a entrevistadora.
Sandra observa Zoé como alguém que poderá ser transportado, modificado, para suas aventuras literárias. A estudante deixa de ser apenas a pessoa que faz perguntas e passa a ser também objeto do olhar da escritora.
Quando uma personagem nasce de uma pessoa real, quem escreve pode investigar sua biografia, observar seu comportamento ou inventar aquilo que não conhece. Mesmo quando procura seguir os fatos, o resultado será sempre uma representação, nunca a própria realidade.
A ficção pode conter um fundo de verdade, mas continuará sendo ficção.
Sandra bebe vinho e parece levemente embriagada. Talvez a bebida seja uma forma de disfarçar ou amenizar a tensão provocada pelo que acontece no andar superior.
A música continua.
Pesquisei sobre essa música alta e insistente, que entra em repetição e interfere na conversa das duas mulheres. Seu título, traduzido, remete à palavra “cafetão”. No filme, ouvimos a versão instrumental. Ela se torna irritante porque perturba justamente aquilo que desejamos ouvir.
A música não apenas atrapalha a entrevista. Ela se impõe sobre a cena.
Sua letra, caso fosse ouvida, acrescentaria uma manifestação de controle e poder. O homem que dispara a música, embora ainda não apareça, parece exercer por meio dela alguma forma de domínio. Ele interfere na entrevista, na presença de Zoé e na tentativa de Sandra de manter a conversa.
Samuel, o marido, ainda não apareceu, mas já está presente.
É justamente a permanência da música que me faz pensar também numa possível inocência de Sandra. Ela continua tocando em volume alto quando Daniel retorna do passeio e encontra o pai caído na neve.
Caso Sandra tivesse confrontado o marido naquele momento, talvez uma de suas primeiras atitudes fosse baixar o volume. Para iniciar uma discussão, um precisaria ouvir o outro. A partir daí, poderia ocorrer um confronto, uma luta, um acidente e uma queda involuntária.
Sandra ainda poderia ser inocente.
Mas essa é apenas uma hipótese entre tantas outras.
Quando Daniel retorna, a música ainda permanece em repetição. Isso também cria uma percepção de tempo. Entre a interrupção da entrevista e o encontro do homem caído na neve, não parece ter transcorrido um período muito longo.
Antes mesmo da queda, o filme já nos havia mostrado que o clima naquela casa não era bom. Sandra parecia estar com a sensibilidade à flor da pele, estimulada talvez pelo vinho, pela música e pela presença invisível do marido.
Tudo o que comento aqui acontece apenas nos primeiros sete minutos do filme.
E há ainda o cachorro.
Snoop não é apenas o companheiro de Daniel. Ele é um personagem essencial porque indica para onde devemos dirigir nossa atenção.
Quando pega a bola e olha fixamente para as mulheres que estão fora do quadro, seu olhar nos conduz até elas. Quando permanece deitado na neve, olhando para o homem caído, também nos orienta.
O cachorro olha, e nossa tendência é procurar aquilo que ele está vendo.
Em poucos minutos, o filme apresenta um incômodo que não é declarado, um homem que se impõe sem aparecer, uma escritora que começa a transformar sua entrevistadora em personagem e um cachorro que ensina o espectador a olhar.
Antes de nos pedir que julguemos o que aconteceu, Anatomia de uma Queda começa distribuindo gestos, sons, silêncios e olhares.
Nada parece estar ali por acaso.
Uma imagem deste filme inspirou GIAM
Foi também deste filme que veio uma das primeiras imagens de Giam, história original que escrevi durante a criação de um curso de roteiro. Não da trama, mas do espaço: os Alpes Franceses, a neve e o isolamento do chalé.
No Ato I, Giam aparece nesse ambiente, vindo pela neve. Às vezes, uma história não nasce de outra história, mas de uma paisagem que permanece na memória.

Imagens: recortes de frames do filme.
Ana Muniz
Anatomia de uma Queda (Anatomie d’une chute), França, 2023. Drama psicológico/jurídico, 151 min. Diretora: Justine Triet. Roteiro: Justine Triet e Arthur Harari. Elenco: Sandra Hüller, Samuel Theis, Milo M. Graner, Zoé Solidor, Antoine Reinartz, Messi e outros.
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