
É interessante observar que mesmo com a alta tecnologia muitos e grandes filmes se sobressaem não pela técnica, truques, mas pelo enredo. E a origem é diversa.
Concordo que não há cinema americano ou francês ou qualquer nacionalidade, mas, sim, que existem filmes feitos em determinadas regiões. O cinema é único. Os filmes é que são muitos.
Por muito tempo optei por ver filmes realizados fora dos Estados Unidos, com exceção dos faroestes, que foi para mim e é para todos que querem compreender a linguagem cinematográfica uma boa lição. As películas americanas das primeiras décadas do cinema fizeram parte da formação de cineastas de muitos países. Neste percurso, roteiristas e diretores de várias nacionalidades se juntam para escrever tramas, muitas delas com a possibilidade da indicação ao prêmio de uma estatueta adicionado à repercussão mundial. Por esta ocasião da homenagem mais sofisticada ao cinema, estamos pensando em alguns candidatos.
Dois indicados ao Oscar 2016 na categoria “Roteiro”

Como se sabe, o roteiro original de Ponte dos Espiões e o roteiro adaptado do filme Brooklyn concorrem ao Oscar 2016. No primeiro, se juntam e assinam o roteiro o inglês Matt Charman, e os americanos Ethan Coen e Joel Coen, os famosos Irmãos Coen, diretores e roteiristas do filme Fargo (1996), que nunca esqueci. No segundo, a perspectiva é do roteirista inglês Nick Hornby a partir da adaptação do romance Brooklyn do escritor irlandês Colm Tóibín, nascido na cidade Enniscorthy, a mesma da personagem principal do filme, Eilis (Saoirse Ronan).
O filme Brooklyn
Brooklyn faz alusões à imigração européia com destino aos Estados Unidos na década de 1950 e décadas anteriores. Através de Eilis (Saoirs
e Ronan) temos algumas perspectivas do que pode ter sido uma viagem de uma cidade do sul da Irlanda ao Brooklyn, distrito de Nova York. No navio, tanto havia o lado egoísta e perverso quanto o lado generoso, quando as pessoas que conheciam a rotina da viagem passavam informações àquelas que a faziam pela primeira vez, na tentativa de que a pessoa superasse as dificuldades próprias do trajeto. A imigração na ficção e o arranjo da personagem no lugar de destino é facilitada por um Padre, e isto nos faz lembrar a respeito da forte influência da Igreja sobre os interesses do Estado.
O que ressalto no roteiro do filme Brooklyn
Sem considerar as informações que podemos ter sobre o filme antes de vê-lo, o que destaco é como o enredo acontece, o modo que se revela. Por exemplo, como o roteiro mostra em que época a história ocorre. No progresso da narrativa o tempo e o local torna-se evidente. Aos quatro minutos mais ou menos sabemos que as personagens estão no Condado de Wexford, assim, as primeiras sequências se passam na cidade irlandesa Enniscorthy, e aos 10 minutos do início Eilis já está viajando em um navio. Contudo, desde o começo percebemos pelos carros e roupas que trata-se da década de 1950. Uma cena que aponta para o tempo ficcional é a do cartaz do filme exposto na porta de um cinema, no Brooklyn: “Singin’ in the rain” (1952), tudo indica que era o ano de seu lançamento.
Mas, muito relevante é a cena que se passa naquele bairro nova-iorquino, representada por muitos homens com 80 anos ou mais: são imigrantes irlandeses que construíram as pontes, as estradas… Enfim, o filme toca pelas sutilezas.
Intervalo entre os dois filmes
Penso que se somar apenas os filmes indicados ao Oscar deste ano daria para formar um quebra-cabeça. Eles seriam as peças que juntaríamos para compor parte da história estadunidense. Além de outros dois filmes que já comentei neste blogue, e para citar outro exemplo para o quadro de referências históricas, menciono o filme, também concorrente, A Grande Aposta (“The Big Short”, 2015), cujo assunto é em torno do estouro da bolha imobiliária nos EUA, no ano de 2008… Dá para perceber a grande promoção em torno do assunto? Bem, isso não é novidade… Uma frase de A Grande Aposta, dita por um banqueiro, se encaixa em evidências que vivemos no Brasil: “Eu sei que pessoas normais vão pagar por tudo isso porque eles sempre pagam”… Até quando vamos pagar por dívidas que não fizemos?
Voltemos à nossa postagem:
O filme Ponte dos Espiões
Ao assistir Ponte dos Espiões, logo após Brooklyn, dá a impressão que houve uma passagem de alguns anos, talvez cinco, posto que a legenda inicial aponta o ano de 1957, que abrange o período da Guerra Fria, brigas entre o capitalismo e o socialismo. Mas, o enfoque é outro. É outra história. Porém, a cidade de origem dos acontecimentos é o Brooklyn, conforme assinala os caracteres. Neste, o imigrante James B. Donovan (Tom Hanks), que atua como advogado, é um irlandês tal como Eilis da ficção citada antes.
Ponte dos Espiões concorre também na categoria de direção de arte. Não vi todos indicados, mas este é intenso, com imagens belíssimas, portanto, votaria nele. Se quiser conhecer a numerosa ficha técnica dos envolvidos na produção, siga este link ou veja o filme. É muita gente envolvida!
Alguns lances do roteiro do filme Ponte dos Espiões
Ao que se refere à época, ficam algumas anotações: a tentativa da CIA de violar o sigilo profissional do advogado; a doutrinação das crianças sobre guerras e a ameaça soviética… Como tem parte que se passa em Berlim, o filme mostra cenas da construção do muro, símbolo da época que dividiu a capital; a prisão de inocentes; as gangues que se juntavam para cometer delitos; as fugas para o outro lado do muro…
A estratégia é o que orienta as ações de Donovan. No filme, baseado em uma história real, a astúcia usada por um advogado de seguros é a mesma que dará resultados positivos com o deslocamento da função do profissional para a atividade jurídica de defesa de um preso político e na negociação de troca de prisioneiros.
O roteiro é notável e se fecha deste modo ao considerar a forma em que a mulher do jurista toma conhecimento dos últimos trabalhos realizados por ele.
Ana Muniz
Imagens dos filmes Ponte dos Espiões e Brooklyn: divulgação Internet.
Parabéns por mais um trabalho brilhante! Análise técnica e crítica em uma linguagem extremamente convidativa. Impossível não pensar nos filmes! Vou assistir. 👏🏻👏🏻👏🏻
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