Filmes “Ponte dos Espiões”, de Steven Spielberg e “Brooklyn”, de John Crowley.

cinema é uma 2

É interessante observar que mesmo com a alta tecnologia muitos e grandes filmes se sobressaem não pela técnica, truques, mas pelo enredo. E a origem é diversa.
Concordo que não há cinema americano ou francês ou qualquer nacionalidade, mas, sim, que existem filmes feitos em determinadas regiões. O cinema é único. Os filmes é que são muitos.
Por muito tempo optei por ver filmes realizados fora dos Estados Unidos, com exceção dos faroestes, que foi para mim e é para todos que querem compreender a linguagem cinematográfica uma boa lição. As películas americanas das primeiras décadas do cinema fizeram parte da formação de cineastas de muitos países. Neste percurso, roteiristas e diretores de várias nacionalidades se juntam para escrever tramas, muitas delas com a possibilidade da indicação ao prêmio de uma estatueta adicionado à repercussão mundial. Por esta ocasião da homenagem mais sofisticada ao cinema, estamos pensando em alguns candidatos.

Dois indicados ao Oscar 2016 na categoria “Roteiro”

ponte e brook 1

Como se sabe, o roteiro original de Ponte dos Espiões e o roteiro adaptado do filme Brooklyn concorrem ao Oscar 2016. No primeiro, se juntam e assinam o roteiro o inglês Matt Charman, e os americanos Ethan Coen e Joel Coen, os famosos Irmãos Coen, diretores e roteiristas do filme Fargo (1996), que nunca esqueci. No segundo, a perspectiva é do roteirista inglês Nick Hornby a partir da adaptação do romance Brooklyn do escritor irlandês Colm Tóibín, nascido na cidade Enniscorthy, a mesma da personagem principal do filme, Eilis (Saoirse Ronan).

filme Brooklyn 

Brooklyn faz alusões à imigração européia com destino aos Estados Unidos na década de 1950 e décadas anteriores. Através de Eilis (Saoirsbrook imigre Ronan) temos algumas perspectivas do que pode ter sido uma viagem de uma cidade do sul da Irlanda ao Brooklyn, distrito de Nova York. No navio, tanto havia o lado egoísta e perverso quanto o lado generoso, quando as pessoas que conheciam a rotina da viagem passavam informações àquelas que a faziam pela primeira vez, na tentativa de que a pessoa superasse as dificuldades próprias do trajeto. A imigração na ficção e o arranjo da personagem no lugar de destino é facilitada por um Padre, e isto nos faz lembrar a respeito da forte influência da Igreja sobre os interesses do Estado.

O que ressalto no roteiro do filme Brooklyn 

Sem considerar as informações que podemos ter sobre o filme antes de vê-lo, o que destaco é como o enredo acontece, o modo que se revela. Por exemplo, como o roteiro mostra em que época a história ocorre. No progresso da narrativa o tempo e o local torna-se evidente. Aos quatro minutos mais ou menos sabemos que as personagens estão no Condado de Wexford, assim, as primeiras sequências se passam na cidade irlandesa Enniscorthy, e aos 10 minutos do início Eilis já está viajando em um navio. Contudo, desde o começo percebemos pelos carros e roupas que trata-se da década de 1950. Uma cena que aponta para o tempo ficcional é a do cartaz do filme exposto na porta de um cinema, no Brooklyn: “Singin’ in the rain” (1952), tudo indica que era o ano de seu lançamento.
Mas, muito relevante é a cena que se passa naquele bairro nova-iorquino, representada por muitos homens com 80 anos ou mais: são imigrantes irlandeses que construíram as pontes, as estradas… Enfim, o filme toca pelas sutilezas.

Intervalo entre os dois filmes

Penso que se somar apenas os filmes indicados ao Oscar deste ano daria para formar um quebra-cabeça. Eles seriam as peças que juntaríamos para compor parte da história estadunidense. Além de outros dois filmes que já comentei neste blogue, e para citar outro exemplo para o quadro de referências históricas, menciono o filme, também concorrente, A Grande Aposta (“The Big Short”, 2015), cujo assunto é em torno do estouro da bolha imobiliária nos EUA, no ano de 2008… Dá para perceber a grande promoção em torno do assunto? Bem, isso não é novidade… Uma frase de A Grande Aposta, dita por um banqueiro, se encaixa em evidências que vivemos no Brasil: “Eu sei que pessoas normais vão pagar por tudo isso porque eles sempre pagam”… Até quando vamos pagar por dívidas que não fizemos?
Voltemos à nossa postagem:

O filme Ponte dos Espiões

a ponteAo assistir Ponte dos Espiões, logo após Brooklyn, dá a impressão que houve uma passagem de alguns anos, talvez cinco, posto que a legenda inicial aponta o ano de 1957, que abrange o período da Guerra Fria, brigas entre o capitalismo e o socialismo. Mas, o enfoque é outro. É outra história. Porém, a cidade de origem dos acontecimentos é o Brooklyn, conforme assinala os caracteres. Neste, o imigrante James B. Donovan (Tom Hanks), que atua como advogado, é um irlandês tal como Eilis da ficção citada antes.
Ponte dos Espiões concorre também na categoria de direção de arte. Não vi todos indicados, mas este é intenso, com imagens belíssimas, portanto, votaria nele. Se quiser conhecer a numerosa ficha técnica dos envolvidos na produção, siga este link ou veja o filme.  É muita gente envolvida!

Alguns lances do roteiro do filme Ponte dos Espiões

Ao que se refere à época, ficam algumas anotações: a tentativa da CIA de violar o sigilo profissional do advogado; a doutrinação das crianças sobre guerras e a ameaça soviética… Como tem parte que se passa em Berlim, o filme mostra cenas da construção do muro, símbolo da época que dividiu a capital; a prisão de inocentes; as gangues que se juntavam para cometer delitos; as fugas para o outro lado do muro…
A estratégia é o que orienta as ações de Donovan. No filme, baseado em uma história real, a astúcia usada por um advogado de seguros é a mesma que dará resultados positivos com o deslocamento da função do profissional para a atividade jurídica de defesa de um preso político e na negociação de troca de prisioneiros.
O roteiro é notável e se fecha deste modo ao considerar a forma em que a mulher do jurista toma conhecimento dos últimos trabalhos realizados por ele.

Ana Muniz

Imagens dos filmes Ponte dos Espiões e Brooklyn: divulgação Internet.

Post único, dois filmes:
Ponte dos Espiões (“Bridge of Spies”), drama, 2015, 2h 22min. Diretor Steven Spielberg. Roteiristas: Matt Charman, Ethan Coen e Joel Coen. Atuam: Tom Hanks, Mark Relance, Amy Ryan, entre outros.
Brooklyn (“Brooklyn”), drama, adaptação, 2015, 1h 51min. Diretor John Crowley. Roteirista Nick Hornby; romance de Colm Toibin. Atuam: Saoirse Ronan, Emory Cohen, Domhnall Gleeson, entre outros.

Um comentário em “Filmes “Ponte dos Espiões”, de Steven Spielberg e “Brooklyn”, de John Crowley.

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  1. Parabéns por mais um trabalho brilhante! Análise técnica e crítica em uma linguagem extremamente convidativa. Impossível não pensar nos filmes! Vou assistir. 👏🏻👏🏻👏🏻

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