Um Limite Entre Nós, de Denzel Washington

0Yoshi Oida, no livro O Ator Invisível, escreveu que, em um espetáculo, “O ator nunca deve ser visto e sim a sua interpretação…”. Pensei nisso quando vi a atuação de Denzel Washington no filme Um limite entre nós. Mas, fiquei em dúvida entre apreciar a sua encenação e odiar o personagem.

Optei por ver o filme e conhecer a vida daquela família negra americana, cuja história se passa na Costa Leste de Pittsburgh, EUA.
Não costumo separar pessoas por serem negras, brancas ou amarelas ou…, mas, são evidentes as questões e a realidade mostra que a experiência que passaram os negros para conquistarem espaço em uma sociedade separatista foi dura e cruel.

Não só o nome de Pittsburgh é mostrado na fachada de um prédio nas cenas iniciais, mas, há também um salão de beleza chamado “Rosebud”. rosebudOlha a quem Denzel Washington, que além de atuar, dirige o filme, faz referências!! Orson Wells, em Cidadão Kane. Sim, faz, ou não apareceria ali, afinal, é uma locação escolhida, construída ou não.
Por que referir-se ao OW? Orson fazia tomadas longas e utilizava poucos cortes… Será que tem sentido?

Fences, que em português passou a ser Um limite entre nós, foi escrito originalmente para o teatro, na década de 1980, pelo dramaturgo americano August Wilson (1945-2005).

1 A fala monopolizadora de Troy Maxson (Denzel Washington) nos primeiros minutos de filme evidencia a linguagem teatral: Não é uma conversa entre dois homens ou três pessoas, é um monólogo com bastante jogo de cena, e os coadjuvantes interferem para ajudar o espectador a compreender o enredo. Estão fazendo teatro para nós? Sim ou Não? Há teatralidade, mantida do texto original.

O tempo todo o foco está em Troy, inclusive no desenlace, suas características, personalidade, suas preferências ainda são reveladas (Por exemplo, a foto de Martin Luther King e John F. Kennedy na parede).

elaMas, aquela mulher (Rose/Viola Davis) que ficava ali de avental com a barriga na pia, calada, dona de casa, apenas assistindo aos shows do marido, vai revelar-se além do esperado. O filme seria uma exaltação aos instintos antagônicos? Na mulher, o instinto materno fala alto: Ela olhou para ele, no passado, e pensou “eu quero ter filhos com este homem” e depois, com os filhos moços, quando se apossa de outro bebê, sua atitude muda radicalmente. Mesmo que o instinto materno provenha de uma ideia fixa e já refutada em estudos, parece aceitável na história. No entanto, não é apenas isso…
3No homem, o impulso sexual dá asas ao seu instinto; o torna egoísta, indesejável.  Condenado por sua própria cabeça por ter tido uma carreira esportista interrompida, seus vínculos mentais com o passado o levam a atitudes egoístas e impositivas com a família.

As ações se passam ano de 1957, e a partir daí decorrem seis anos, até os anos 1960. Troy Maxson e Rose Maxon são marido e mulher, em um clima disfarçadamente leve e agudamente denso, evidenciando a problemática racial; e dentro desse campo o personagem principal tem um objetivo, que o filme tratará de concretizar ou não.

Denzel Washington traz neste filme a marca de sua personalidade acrescentada de influências. Provavelmente, o início de Fences, com falas rápidas, contrapõe inícios de Wells, em A Marca da Maldade e Cidadão Kane, que utilizam essencialmente a linguagem imagética, construída através da colocação da câmera e da montagem. Mas, talvez Denzel queira que lembremos mais da profusão de falas de Cidadão Kane, ao fazer um filme com muitos diálogos, reafirmando que o cinema faz também uso desse recurso, mesmo sendo ele mais próprio do teatro…

Dois grandes momentos: A fala/desabafo de Rose para Troy e a chegada do filho marinheiro. Imperdível!

Destaco a forma como o diálogo entre Rose e Cory (Jovan Adepo) se formou para fazer revelações sobre o acontecido com o pai…

… e metáfora da cerca que nunca termina…

Ana Muniz

Um Limite Entre Nós (Original: Fences). 2h 19min. Drama. EUA, 2017. Diretor: Denzel Washington. Texto e Roteiro (Adaptação): August Wilson. Atuam: Denzel Washington, Viola Davis e outros

2 comentários em “Um Limite Entre Nós, de Denzel Washington

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  1. Ana Muniz, você escreve de forma a tornar a nossa experiência vendo os filmes muito mais completa, rica. Muitas vezes passo pelos filmes sem dar valor, sem grande interesse e, após ler o seu texto sobre qualquer deles, a curiosidade é aguçada e quero ver o filme. Mesmo quando eu assisto e não gosto, depois, no final, tenho a consciência de ter tido essa experiência não em vão, mas como um aprendizado de observação, de ampliação de horizontes mesmo. Você consegue tornar algo que eu normalmente rejeitaria em algo interessante e útil, mesmo que eu não goste do filme no final! É maluco isso. Obrigada!!

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    1. Claudia, fico feliz por causar isso. Os filmes sempre nos passam informações e cada pessoa vê de acordo com suas experiências. Expressar de alguma forma publicamente é uma forma de compartilhar uma vivência própria, mas que pode ser abrangente de acordo com as temáticas…

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