CAFÉ SOCIETY, de Woody Allen.

Hoje, o que me chamou a atenção foi a narração em off de “Café Society”. O que Woody Allen quer nos contar neste filme com tantas palavras? De forma tão prolixa… Sim, está dentro de seu estilo, mas… Se a obra de um autor diz muito do próprio, esta talvez seja uma montagem que o une a uma história que não viveu, mas a um meio que passou a participar décadas depois, a partir de 1950. O personagem principal chama-se Bobby (Jesse Eisenberg), mas o nome poderia ser Woody – Bobby/Woody. Uma volta ao tempo que o diretor não viveu, através de falas, figurinos, fotografia, personagens que se colocam tão fielmente na organização dos cenários.

piscMuita coisa em jogo: Sucesso, Poderes, Bandidagem, Crenças, Simplicidade, Sofisticação… O Poder que tem Phil (Steve Carell) através do dinheiro e fama ou o Poder que o vizinho barulhento quer impor sendo egoísta, e o Poder de Ben (Corey Stoll), o gangster, e o Poder da Justiça que não falha… Há ainda um Poder que vai além da compreensão, algo que apenas é sentido quando atinge o coração de uma pessoa: o Poder do Amor.

Por estas vias, o diretor escolhe a palavra, que tem uma espécie de Poder, para evidenciar situações: Bobby sabia que Vonnie (Kristen Stewart) havia terminado o namoro e ignorou a tristeza dela, investiu na relação e achou que se casariam… Narração: “Vonnie estava entristecida com o fim de seu caso, mas Bobby decidiu por ela que ela não estava (…) Com o tempo, Vonnie sucumbiu ao charme de Bobby e sua meiga atenção. E o que havia começado como uma amizade infantil se metamorfoseou num romance genuíno.”  Este texto seria dispensável, pois, para compreender que o casal estava se relacionando, indo a lugares e cada vez mais gostando um do outro, bastam as imagens. crepusMas, o que Woody nos entrega é um texto às vezes romântico de um sonhador, além das belas imagens. Ele não dispensa a palavra, falada por ele mesmo, em favor das imagens; privilegia o literário, o seu escrito; ele é o roteirista.  Este narrador se mostra principalmente conhecedor da história que conta; aquele que “tudo sabe”, onisciente.

Na sequência de seus argumentos, recorre à palavra para falar de Ben. Desta vez, traz parte da descrição do personagem que é um processo de elaboração do roteiro, isto é, que ficaria fora do filme, e poderia mostrar somente as cenas… Narra: “Ben Dorfman, Benny para os íntimos. Sempre teve problemas com a lei, desde os tempos de escola. Em seu bairro judeu, a maioria das crianças estudava. Muitos se tornaram médicos ou advogados. Mas nem todos. Alguns viraram chefes de gangues judias (…)”
O cinema, após adquirir linguagem própria, é capaz de contar histórias independente dos recursos utilizados em épocas iniciais desta arte. No entanto, cada realizador coloca a sua criatividade em ação para fazer os seus filmes. Woody utilizando-se deste tipo narrativo esbarra no documentário clássico que é um modo de descrever, comprovar ou questionar ou evidenciar pela palavra os eventos em questão. Ao utilizar-se deste recurso pode atingir um público mais amplo, pela clareza. Mas, não é tão claro quanto parece, pois há questões intrigantes que se escondem por trás de uma boa piada. A superficialidade passa longe deste mestre.

WOODY ALLEN

O humor de Woody Allen é cativante. Tanto que, além de ter visto os seus famosos filmes da década de 1970, tive também a oportunidade e li o seu livro de histórias cômicas “Que loucura!”, e outro que não me recordo o nome e apesar de não me lembrar das piadas, ficou a minha preferência pelo cineasta por longos anos, até que acabei mudando o rumo das coisas… Vi outros de seus filmes, mas apenas agora assisti a este mais atual. É uma aula de cinema cada filme que faz. É inteligentíssimo, e isso não é novidade… Woody é octogenário e carrega a bagagem de mais de quarenta filmes realizados. wa

Em “Café Society” revisita críticas de outros de seus filmes, aos costumes de famílias judias, joga com as relações sociais do final dos anos 1930, em Hollywood e Nova York, o berço do glamour cinematográfico… Bobby traça o percurso da história: É ele que quer sair e sai de NY e vai para Hollywood para tentar um trabalho através do tio que é um famoso Agente artístico. A família judia é a dele: Mãe (irmã do Agente), Pai, Irmã, Cunhado, Irmão. Todos são movidos a participar e a desempenhar papéis significativos na história. Os amigos, as duas Verônicas… Bobby seria um Woody Allen jovenzinho, franzino, aparentemente corcunda, porém muito simpático e inteligente…

Falar da trilha sonora é cair no comum, pois, o jazz se encaixa muito bem nas histórias nova-iorquinas e é a preferência do diretor, que ainda nos dá apresentações “ao vivo”, com instrumentos típicos do estilo, cello, bateria, sax, piano…

Ana Muniz

Imagens: Frames do filme.
Imagem com Woody Allen durante a gravação de “Café Society”: Internet.

Café Society (Café Society), USA, 2016, Drama, Romance, Comédia, 1h 36 m. Direção e Roteiro: Woody Allen. Atuam:  Steve Carell, Jesse Eisenberg, Kristen Stewart e outros.

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