Filme “Madame Bovary”, de Sophie Barthes

Madame Bovary, adaptação do livro de Flaubert.

Quem cria um roteiro para um filme não se livra das frases da escrita ficcional. A diferença é que certas passagens geralmente não ficam evidentes na tela. O filme por trabalhar especialmente a imagem cuida de mostrar no comportamento e em poucas palavras a situação em evidência.

O livro e a filme são dois meios diferentes de se contar histórias, às vezes a mesma história. Nas etapas de escrita de um roteiro a literatura está presente. Ao construir uma personagem vasculhamos todos os aspectos de sua vida, temos que criar elos com a sua vivência passada, relacionamentos, classe social, caráter, amigos próximos e ausentes, tudo que colabora para compor a pessoa que veremos representar na tela, de modo que seja autêntica.

São estas características acima que me chamam a atenção para pensar brevemente uma relação entre o livro e o filme homônimo Madame Bovary.
Na última versão lançada no cinema no ano de 2015 temos um exemplo de um tipo de adaptação ou de uma obra que se inspirou em outra para desenvolver um enredo.

Para merecer uma e tantas outras releituras é sabido que a obra é prima. Flaubert mesmo disse: “Madame Bovary sou eu”. Em certos aspectos, é um retrato de uma época e muito bem pintado, com detalhes ínfimos. Se fosse uma pesquisa de época, o estudo realizado economizaria um bom tempo de qualquer roteirista que vai se dedicar a outras partes e definir o começo, meio e fim.

Enquanto Flaubert conta uma história escapando da linearidade, a diretora e roteirista Sophie Barthes narra sem olhar para trás, se não considerarmos a cena inicial. No começo do filme ela optou por revelar o fim, é como se dissesse: é assim que termina, a partir de então vou contar o que houve para chegar a isso… Portanto, tudo que se desenrola é passado e a trama é um flashback.

A diretora tenta “roubar” de Flaubert os ricos detalhes do livro principalmente ao desenvolver as cenas rápidas iniciais da estada de Ema (Mia Wasikowska) no Convento das Ursulinas, que são mostras da formação que ela recebeu naquele lugar. Enquanto nesta adaptação o casamento pode parecer “arranjado” – ela saiu do convento para casar e em seguida já iniciou os preparativos para o enlace – no livro, muitas frases revelam com minúcias visitas frequentes de Carlos (Henry Lloyd-Hughes) ao pai de Ema, que passaram a ser uma boa desculpa para ver a ex-noviça, e a aproximação veio com o tempo, o que levou à concretização da união.

Carlos ou Charles é um homem com costumes enraizados no interior europeu do século XIX, sem ambição, de origem humilde e que se esforçava para dar conta da profissão a que se dedicava, assim como o fazia a seu modo no casamento, sem no entanto desgrudar de hábitos, que para uma mulher como Ema era o contraditório de seus interesses, além de passar a ser a frustração de suas ambições.
Esta é uma ideia comum entre as duas obras.

A adaptação “não se interessou” pela relação anterior de Carlos, que fora casado por pouco tempo com a viúva Heloísa que mandava nele – casamento realizado com o empenho da mãe Bovary. A mulher era caprichosa e se queixava diariamente, não era o casamento dos sonhos do rapaz. Foi durante esta relação que Carlos conheceu e passou a se interessar por Ema, segundo a literatura. Mas, ele não se importava com as queixas, pois “amava outra”, segundo o autor. E esta é a brecha que Flaubert deixa no capítulo 1, para continuar os seguintes que dará à morte da primeira mulher e união com Ema após o cumprimento do período de luto.
Provavelmente, no filme, foi dada a prioridade às atitudes da Madame daquele século quando deixou de lado situações que não comprometessem a ideia principal.

Ana Muniz

Filme Madame Bovary, 2015, USA, 1h 58min, drama. Direção Sophie Barthes; roteiro Felipe Marino, Sophie Barthes; adaptação da obra homônima de Gustave Flaubert. Atuam: Mia Wasikowska, Henry Lloyd-Hughes, Ezra Miller, Paul Giamatti, Laura Carmichael, Logan Marshall-Green, Rhys Ifans.

2 comentários em “Filme “Madame Bovary”, de Sophie Barthes

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  1. Ótima análise. Assistir um filme é sempre uma maneira prazeirosa de conhecer a história, os personagens e dar vida às letras, mas ler o livro é aprofundar na história e conhecer seu verdadeiro sentido na ótica no autor. Muito bom! Ah! Adorei a foto!!! 👏🏻👏🏻😘😘

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