
Entre as cenas da nevasca há uma sequência do escritor com sua editora, que representa para a literatura e também no filme uma volta ao passado para dizer “foi isso que aconteceu antes”.
Para quem gosta de ruídos especiais, disse ruído e não efeitos, observe o primeiro, na entrada do filme, antes da primeira imagem. É nostálgico, hoje. Na época, nem tanto, era 1990. Mas, dá até para confundir e procurar na sala de onde vem o barulhinho. É rapidinho, e ele vem da cena.
Continuando com o que eu insinuei no vídeo que publiquei hoje no Instagram falando desta postagem, não era este o filme que eu “tinha na cabeça”, isto é, que eu procurava em VHS para assistir. Mas, é quase certo que quem trabalha no outro é também Kathy Bates. No outro, que não lembro o nome, não tem faca, não tem revólver, não tem essas armas, pelo menos no sentido deste filme, que é um tanto tenso. Eu não escolheria Misery pela capa. Eu tinha este filme porque eu comprava os filmes da Folha na época. Observei que vi todos que tenho comigo, mas este eu não tinha visto. Acho que foi pela capa.
Eu vejo no filme uma crítica à polícia daquele local. Porque a atitude que o delegado teve quando a história beira ao final é o que ele deveria ter feito no início do desenvolvimento. Bem, se ocorresse isso, talvez não tivesse história ou ela seria outra.
A história se desenrola a partir de um acidente com um escritor durante uma nevasca. Isso ocorre próximo à casa da fazenda onde mora Anne Wilkes, que no passado foi presa, acusada de assassinato, entre outras aventuras desta instigante personagem.
Esta proximidade já seria o bastante para investigar de imediato, a partir do nefasto sumiço do escritor. Mas, isso só ocorre muito mais para frente, quando o delegado vê Anne e passa a se interessar por ela.
Por outro lado, segundo a fã número 1, o motivo que a levou a achar o escritor logo após o acidente é que ela o perseguia. Bem, quem persegue é maníaco, maníaca. Fã acompanha, de alguma forma. Entendo que poderia ser um caso de um fotógrafo, um paparazzo, mas não de uma fã, essa tal perseguição. O paparazzo perseguiria o escritor a ponto de testemunhar um crime ou um acidente. Tá, mas, o fato é que é uma fã maníaca. Sim, é. Ela é demente.
É aí que a história fica interessante. Escritor x Personagem. Porque Anne Wilkes é uma personagem. Escritor também o é, mas é um criador de personagens. Vejo o escritor olhando para Anne como se olhasse para a sua personagem Misery.
Parece, então, que Misery saiu do papel, encarnou em Anne e Paul Sheldon tinha que acabar com ela ou ela acabaria com ele.
Observo que o lado escuro, o do mal, tem uma resistência para se acabar, ele não se extingue fácil, ele é cruel, denso. É preciso que a força contrária tenha vigor e inteligência para conseguir exterminar o oposto. Se isso acontece, é um peso sobre o outro, e é o indesejável que cai sobre o obsediado encerrando uma cena de terror.
Um homem se acidentou e passa a viver imobilizado em um quarto. Isso me lembra de Janela Indiscreta (Rear Window, Alfred Hitchcock, 1954). Em Misery, tudo acontece, na maior parte do tempo, dentro do quarto, isto é, as cenas, os planejamentos, as frustrações, as intenções, as revelações… Em Janela Indiscreta, as histórias vão se construindo além da janela, a partir do que ocorre do lado de fora. Mas, em ambos, o sujeito está refém da própria situação de acidentado. Misery vai além quanto ao terror explícito e torna o protagonista refém de sua salvadora.
Ana Muniz
Algo que gostei, à parte:
Quando a personagem Anne critica os finais de um capítulo de uma série ou de um seriado. Ela fala do desrespeito ao espectador, do gancho enganoso, que revela uma coisa em um final e na continuação, o mesmo final tem uma sutil diferença da anterior, que livra alguém, por exemplo, de um perigo – que foi o gancho que impactou aquele episódio. Como se a pessoa não fosse sair daquela situação. Mas, o autor dá um jeito, volta o tempo, volta a ação e por um fio fulano escapa.
Louca Obsessão (Original Misery), EUA, drama, 1h47min. Adaptação de novela de Stephen King; Direção Rob Reiner; Roteiro William Goldman. Atuam: James Caan, Kathy Bates, Lauren Bacall.
Obrigada por comentar!