“Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?” *
Tudo é dígito, tudo é fonte, tudo é caractere, tudo é digital! “Onde é que há gente no mundo?” Verdade que estamos fartos. É certo que nos sentimos isolados, presos, ridículos. É fato que somos privilegiados com a vida, nos preservamos para tê-la. Para viver um tal momento que virá. Agora, a precaução nos indica apenas a sobrevivência.
O filme Tropa Zero:
Observem que o filme foi dirigido por duas mulheres e tem como roteirista outra mulher e envolve grande presença de mais mulheres no elenco. São pontos de vista muito importantes, pois o que temos no geral na mídia e no cinema, nem tanto nestes últimos anos, mas estes meios sempre foram marcados pela presença de uma escrita de homens. Portanto, as mulheres conviveram com a manifestação massiva do pensamento deles por muito tempo, enquanto o nosso, o feminino, estava engavetado. Sacaram? Nada de feminismo se manifestando, apenas uma constatação.

A menina Christmas de dez anos mais ou menos perdeu a mãe e vive com o pai. No momento da história ela insiste em observar a vida nas estrelas. Sonha em conseguir contato com seres de outras galáxias e através deles saber de sua mãe.

O filme é mais para adulto do que para crianças. Mas pode ser uma ótima diversão para elas. Dá exemplos de como lidar com as diferentes meninas e meninos, cada um com a sua potencialidade, que às vezes se manifesta de forma baderneira, e algumas brincadeiras um tanto exóticas. A ficção acompanha, observa e atribui a cada criança uma atividade que corresponda à personalidade própria deles. Com isso, no jogo atribuído na história, as realizações que competem aos indivíduos são mais efetivas.

É triste ver o lado obscuro das pessoas. Sempre existem aquelas más, que querem empurrar o outro para o buraco e jogar terra. Ufa! Que triste! No filme é recorrente, tem a turma da intriga, cujo membro cabeça “se acha”. Esta ataca a pequena Christimas através do que ela tem de mais íntimo e doloroso.
No entanto, esta característica que representa a dor da menina é que leva seus amigos a se solidarizarem com ela numa demonstração emocionante de amizade.
Como se trata de uma competição, alguém tem que vencer. Se olharmos como uma representação em um páreo dentro da política, teríamos os conservadores qua atuam como marimbondos, carrancudos, simulados e que atacam quando você menos espera. Esta visão é o que eu vejo, pensando o filme como uma metáfora de um campo de batalha que disputa um governo. Os liberais, que seria a turma da Christimas, são aqueles com quem nos simpatizamos, no geral os “do bem”, são talentosos e não invejosos como os outros, criativos e não repetitivos como aquelas rivais e assim vai. É tudo discutível. É bastante superficial nesse ponto. É uma alegoria.

Como sempre, o filme é muito mais que poucas palavras. Para mencionar apenas algumas atuações, Viola Davis está maravilhosa como Senhorita Rayleen. Muito interessante observar o reencontro com a diretora, como se dá o diálogo e a atuação das velhas conhecidas. E a garotada foi muito bem selecionada.
David Bowie é tão bem representado por Charlie Shotwell no personagem Joseph, na performance da música Starman, cuja letra leva ao céu que é o foco da sua amiga Christimas: “There’s a starman waiting in the sky/Há um starman esperando no céu”.
Encerro com uma citação de origem desconhecida ou sem comprovação: Não há nada nobre em ser superior ao seu semelhante. A verdadeira nobreza é ser superior ao seu antigo eu.
Ana Muniz
Tropa Zero (Original Troop Zero) Drama/Comédia/Aventura. Direção Bert & Bertie. Roteiro Lucy Alibar. Atuam: Viola Davis, Mckenna Grace, Jim Gaffigan e outros. 2020. 97 min. (Amazon)
* Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, do livro Fernando Pessoa – Obra Poética, Cia. José Aguilar Editora – Rio de Janeiro, 1972.
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