“Cópia Fiel”, de Abbas Kiarostami (Post 3/3)

O marido no filme também é uma “cópia”

cópia os doisO escritor aceita sair para tomar um café com a dona da loja de antiguidades, e fazem um percurso pela estrada, de onde estão, Arezzo, até chegar a Lucignano, um pequeno povoado naquela região de Toscana.
No carro, Elle, por um instante, deixa escapar o quanto está empolgada pela presença do escritor. As primeiras questões lançadas no livro, relativas a “original” e “cópia”, movem a conversação que se iniciou no piso inferior da galeria e seguem durante o filme.

Duas sequências/várias cenas me chamam a atenção, a primeira se passa no Café. Pensando no roteiro do filme e ainda que não seja uma narrativa comum, observo que a função da “Dona do café” (Gianna Giachetti) é impulsionar a história para diante.
cópia caféA cena no “Café”, que ocorre entre a primeira e segunda parte, é um ponto determinante para alterações no comportamento daqueles dois: Em um dado momento, a “Dona” fala com James num tom que ele não entende. Ele olha para Elle e subentende-se que pergunta: O que ela está falando? Responde: “Ela pensa que somos marido e mulher”. Além de não desfazer o que a outra julgou pela aparência, segue e coadjuva com a francesa o que ela já aceitara.
O filme é uma espécie de jogo em que o diretor convoca os atores e nós, espectadores, para participar. A personagem de Binoche vai dando as cartas, é caprichosa e simula situações. Casada, mas, a vida dela não tem sido fácil com um filho para criar e o marido distante. Este está ausente em todo filme, como está na vida dela.

“Faça um gesto e liberte-se” * 

cópia jean 1cópia jean 2A segunda sequência se passa na Praça, ao redor de uma estátua de um homem em pé, e uma mulher atrás com a cabeça encostada no ombro dele; e uma criança. Deixando de lado a sutileza empregada pelo diretor ao filmar esta parte, saliento outra cena neste local; do casal, cujo áudio vaza para a imagem de James ao lado da moto. No caso, vemos James e escutamos a voz de um homem. Em seguida, vemos esse homem que continua falando – É o personagem representado por Jean-Claude Carrière – A brincadeira é bem clara: De início, é como se ele estivesse falando com a mulher à sua frente, com rigidez. Logo, ele vira-se e não é o que a impressão nos causou e a mulher é que tem uma boa saída.

“Não é simples ser simples” * 

O que Kiarostami contempla em seu filme reúne questões filosóficas e psicológicas às quais não vou recorrer e nem resumir por serem muito abrangentes. No entanto, observo que, possivelmente, seu olhar perpassa por experiências ligadas ao que se chamou de empirismo inglês – Daí o personagem desta origem? – Talvez em grande parte do tempo seja questionado o uso da razão acima da percepção, pela experiência dos sentidos, para compreender coisas circunstanciais. Por exemplo, quando James afirma que damos atenção a uma frase dita por um filósofo e não valorizamos o falado por uma pessoa comum, no caso, um menino, sendo que as duas têm significado igual. Se considerarmos essa ideia, o escritor contraria o pensamento cartesiano, que defende o pensar adquirido pelo método. Ao mesmo tempo, parece entranhar-se pelo racionalismo, pois, é intrínseco à pessoa que pensa a realidade física e fisiológica. Dentro do contexto do filme, considero que isso é representado em cenas figurativas que remetem a observações no espaço, além do que está à vista, quando ele olha pela janela, na última parte; e as que envolvem a necessidade de comer e de ir ao banheiro. Não é um assunto encerrado. Isso é muito claro. Um livro não pode conter tudo e nem um filme.

Ana Muniz

  • Frases do mesmo filme.
    Foto 1, 2, 3 e 4: Frames do filme.

[Post 3/3 do filme Cópia fiel (original “Copie conforme“), diretor Abbas Kiarostami, 2010, França/Itália/Bélgica/Irã; roteiro Abbas Kiarostami e Caroline Eliacheff (colaboradora)]

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