Morri de dó!
A primeira sequência, que nos traz uma floresta do alto ao baixo, remete ao modo de vida indígena, quando, camuflados pelas folhagens, espreitam uma presa, um ingênuo alce que passa por ali.
Então, eu, que não li nada sobre o filme, fiquei pensando quem são estes personagens sujos e aparentemente malvados, e imaginei um tipo de história… Mas, ela vai se desenrolando de forma inesperada, passeando por referências, explicitamente, as teorias de Chomsky.
À parte – A “perda” do sinônimo PELÍCULA…
Antes, falava-se “película” ou “fita” como sinônimos de “filme”, mas, hoje em dia praticamente não se grava em película e nem em fita, portanto, em alguns casos, perdemos o recurso do uso destas palavras, agora que as produções, muitas delas, originam-se de gravações em HDs e exibições também. Além do mais, muitas películas antigas foram digitalizadas, passadas para o suporte HD. Assim, a obra cinematográfica, a história, o enredo, a trama, a narrativa, o filme, são modos de referir ao próprio na composição de um texto…
Sabe lá o que não ter e ter que ter para dar (Djavan)
O filme trata do “modus educandi”; de EDUCAÇÃO. Oportuno modo de colocar a questão relativa em discussão, o filme se junta a uma lista de outros que tratam do tema. Este, talvez coloque o assunto em dois extremos; é possível que nenhum atenda ao chamado da formação infantil/juvenil que agrade amplamente. Ao evidenciar a exploração do método de educar do Capitão, a história nos coloca diante de falhas do ensino convencional. Embora não se detenha nele, através dos dois sobrinhos, é possível perceber a ausência de estímulos que motivem crianças a gostarem de estudar, de aprender, da escola.
Ben (Viggo Mortensen), o Capitão, e sua mulher, Leslie (Trin Miller), decidiram largar tudo e acabaram radicando em uma floresta, com seus filhos. Forçado a ficar só, o marido, ao seu modo, continuou o “projeto” de educação dos seis filhos, distantes do convívio social, com práticas diárias de leituras e testes orais, em que as crianças demonstram sua interpretação do conteúdo; exaustivas atividades físicas…
Elas e eles, mesmo ausentes da escola formal, sabem citar frases de grandes pensadores, e respondem perguntas que só um adulto bem preparado poderia acertar.
Talvez a principal característica de Ben seja a falta de “noção de tempo” (Piaget).
O título “Capitão Fantástico” corresponde ao comportamento do CAPITÃO, cuja palavra sugere disciplina, rigor, submissão; enquanto FANTÁSTICO, o maravilhoso, o encantado, o lúdico. Poderia ser perfeito, mas há um deslocamento do espaço. Há um alheamento temporal.
Fora do filme, os dois sobrinhos de Ben, provavelmente alunos de uma boa escola, tudo indica, levam uma vida como qualquer jovem de sua classe e idade; adolescentes…
Diante de uma fatalidade, as crianças têm a oportunidade de se conhecerem. Na casa da irmã, Ben expõe a si e sua família a constrangedoras situações. Na ocasião, fica evidente que estavam sendo educados alheios à realidade social moderna, além do pai permitir aos filhos o que é proibido aos outros: beber vinho pode; falar qualquer coisa diante da criança, pode… Tudo ocorreu sob os olhares desentendidos dos dois outros educados.
Porém, há controvérsias. O jogo no videogame, por ser tão violento, causa espanto aos “floresteiros”. Como alguém pode se divertir com tanta agressividade!! Poderiam imaginar… Isso parece ir muito além das lições de autodefesa que tenham praticado na floresta…
Algo marcante, sobre a deseducação dos dois citadinos, ocorre ao sair dos visitantes: O gesto feito pelos meninos representa o quanto criamos jovens carentes de exemplos edificantes. Cada um com um dedo erguido demonstra a ausência da “boa educação” (Mark Twain).
Quem cria “diversões eletrônicas” (Arrigo Barnabé) para a garotada? Com que intuito? Se a intenção é apenas a obtenção de lucro financeiro, a sociedade deve continuar lutando contra isso.
Que educação é essa dada por Ben, em que há mentiras e transgressões e os coloca fora do seu tempo? Bo (George MacKay ) mente “profissionalmente” para a garota sobre seus pais e, ingenuamente, sem saber quem é a menina, faz uma declaração de amor; que me remete a um personagem shakespeariano; distante dos dias atuais.
O comportamento de cada filho apresenta lacunas visíveis, e ao mesmo tempo conduz a inúmeras reflexões. Apresentam um tipo de ausência de conhecimento urbano, que não é difícil associar ao tempo do auge da agricultura no Brasil, quando uma “família caipira” (Antônio Cândido) vinham à cidade.
É provável que o roteirista Matt Ross, a favor da experiência, nos coloque diante de práticas do que nunca saiu do papel, na sua totalidade, e, fazendo alusões ao teórico, disponibiliza muitos elementos para estudo, especialmente para educadores.
Contra o sistema capitalista, o Capitão, “educador” e pai, se acovarda por compreender que induzia as crianças ao delito e arriscava suas vidas. Reverte-se em “bom perdedor”. Forçosamente interrompe suas “missões”. As crianças não; aprenderam as lições. O que absorveram é para sempre, mas, outra forma de vida…
Provavelmente, o escritor do enredo não conhece Paulo Freire, mas a história nos leva a pensar, de acordo com o citado, que “Não há vida sem correção, sem retificação”. Ou, se há vida, há mudanças, pois, “tudo muda o tempo todo” (Lulu Santos) ou o mundo é “um infinito e perpétuo tecido de movimentos” (Heráclito).
E… Afinal, do que vale a teoria sem a prática?
Ana Muniz
Imagens: Frames do filme.
Capitão Fantástico (Captain Fantastic), USA, 2016, Drama, 1h 58min Direção e Roteiro: Matt Ross. Atuam: Viggo Mortensen, George Mackay, Trin Miller e outros.
Muito bom o seu texto! Quero ver o filme!!
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Valeu, Cláudia. Obrigada pela visita. Eu achei o filme muito complexo relativamente ao assunto, mas consegui observar algumas coisas. Acho muito importante esse tipo de “documento”, o filme, pois da um impulso para muitas discussões em outros ambientes, principalmente entre educadores. Lembrando que todo adulto pode ser um, ainda mais se for mãe ou pai. Beijo!
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