Contracorrente
Remando
É irônico pensar em Godard relacionado à narrativa clássica. Ele pertenceu ao movimento Nouvelle Vague, que era exatamente contra as regras evidentes no cinema americano, “pai” desse processo narrativo. Refiro-me ao modo de narrar seguindo a ordem de começo, meio e fim. Mesmo assim, vou retirar um exemplo deste filme. Rei Lear de Godard não é uma narrativa clássica. Por exemplo, aos 50’33”, Cordélia (atriz Molly Ringwald) está deitada com um livro, e acabou de fechar os olhos. Outras cenas acontecem durante os vinte minutos seguintes, e volta novamente à cena de Cordélia em 1h07′, deitada com um livro, quando irá acordar.
Em uma narrativa clássica, poderíamos perceber, mesmo tendo decorrido um certo tempo, que Cordélia estivera sonhando ou pensando durante aqueles vinte minutos. Não é isso que acontece no filme de Godard. Este, ainda parece brincar com a linguagem, quando insere entre estas duas cenas um breve trecho de Cordélia despertando, aos 57min. No outro tipo de narrativa, um trecho da mesma cena, como no exemplo, inserido entre a primeira cena e a última serviria para reafirmar a ideia de que as imagens estivessem “passando naquela cabeça”. Inclusive, quando a sequência é longa este recurso torna indispensável para um melhor entendimento.
Mas, o inserido entre uma imagem e outra por Godard é um trecho que repete na cena final desta sequência; é um trecho que foi colocado ali de forma aleatória e segue uma sequência ilógica de montagem.
Em tempo: Sons alterados, imagens que se repetem, “duendes”… Poderíamos chamar tudo isso de “pensamentos”? E sendo pensamentos (seriam desordenados) e poderiam ser do personagem Shakespeare Jr. Quinto (Peter Sellars), que declara em outras cenas estar lembrando destes fatos vinte anos após?
(Três frames e Post 4/7 do filme Rei Lear, diretor Jean-Luc Godard, 1987, EUA; roteiro Jean-Luc Godard, Norman Mailer, Herschel F. Rubin).