Dois documentários

O momento, eu e você

Neste mês de março algo sombrio passou a ameaçar mais de perto nossa população. Nunca passamos por isso, nossa geração não. Isto nos atropela e prorroga nossos sonhos e compromissos para mais adiante. O importante é que temos esperança e vamos sair dessa e vamos ficar todos bem. Tal vírus desconhecido interrompe planos e expulsou-me de São Paulo bem no momento em que eu estava lutando para trocar de apartamento. Tive que vir às pressas para Minas Gerais, aluguei um carro e peguei a estrada. Não pelo temor ao bicho, mas pela minha responsabilidade de pegar minha madrecita que deixei em Uberlândia com minha irmã e trazê-la para Ituiutaba, onde estamos evitando o mal que ronda de forma invisível. Fiquemos em casa! No dia em que eu viajava a cidade de pouco mais de cem mil habitantes já somava três casos suspeitos, hoje, dez dias depois, os casos suspeitos são mais de quarenta, segundo mídia local. O perigo está onde não se sabe. O melhor é prevenir. Assim, o meu espírito agora está delicadamente tocado por estas situações, bem como sei que você também está.

Filmes

Por estes dias estaria acontecendo em São Paulo o festival de documentário É Tudo Verdade. Mas, devido aos acontecimentos na área da saúde, foi adiado, e disponibilizam uma mostra por alguns dias nos sites do Itaú Cultural, SPCine e Canal Brasil. É uma excelente oportunidade para conhecer esse universo cinemágico. No site do festival tem todas as informações.

Os serviços online de streaming nem sempre suportam um volume grande de espectadores ao mesmo tempo, e por isso não reclamo por não ter conseguido assistir a dois filmes que escolhi. Tive que ir ao Youtube para ver se estavam lá. Estão.

A pessoa é para o que nasce

a pessoa

Documentário com imagens gravadas especialmente para o filme e imagens de arquivo. Conta a história de três irmãs cegas de Campina Grande, na Paraíba, desde mocinhas nos anos 1966 até a época final do documentário, 2004. Privadas da luz desde o nascimento, com o tempo vão para as ruas serem pedintes. Esta situação traz para perto das mulheres alguns exploradores, pessoas que se aproveitam para se sustentar de esmolas arrecadadas. Lúcidas, com grande sensibilidade musical, em paralelo ao seu precário modo de sobrevivência, cantam e tocam percussão nas ruas, o que as levam posteriormente ao encontro de grandes nomes da música popular brasileira, como Gilberto Gil e Naná Vasconcelos.

Gostei demais da história, da edição, da direção, da câmera que simula um Big Brother – ela quis ser indiscreta, ousada, e mostrar ou descobrir o que se passava no íntimo daquelas femininas, e descobriu… Mas, para mim, o final perde toda poética que o filme apresenta ao colocá-lo no seio governamental. Por que levar essa história tão delicada ao Palácio da Alvorada? Seria apenas porque o Gil era o Ministro da Cultura? Uma história construída de forma tão fascinante, e que me emocionou do começo ao quase fim, do meu ponto de vista, reitero, não merecia este final misturado à política. Apesar disso, o filme merece ser visto, a história é muito bonita. Agora, se certa personagem desde o começo do filme tivesse manifestado um desejo forte de pisar ali em áreas tão privativas, seria diferente. Spoiler?

A negação do Brasil

a negação

Através de imagens de arquivo, narração em off e gravações para o documentário de artistas que falam de suas atuações em novelas que marcaram época nas telinhas, o filme vai desenhando os diversos cenários propagados pela televisão brasileira em relação ao aparecimento de atores negros, deixando claro o preconceito da sociedade que a telinha queria reproduzir e ou oferecer o que pudesse agradar.

A narração em off está na voz do próprio diretor Joel Zito Araújo e na belíssima voz de João Acaiade. Não vou entrar no mérito da questão histórica por ser tão extensa e, além disso, esse absurdo de tratar pessoas as distinguindo por uma coisa ou outra não me seduz. Pessoas são pessoas e pronto. No entanto, o filme revela e desperta uma excelente discussão sobre a participação de artistas da raça negra em telenovelas desde as primeiras exibições. Assistimos a trechos de novelas exibidas na tv, enquanto algumas atrizes ou atores assistem também no filme, e depõem sobre as circunstâncais de seu trabalho. Diretores falam da escolha das personagens e da dificuldade na época para encontrar pessoas preparadas. Deixam claro que o texto quando passa para a tv ganhou nova conotação, e o artista branco acaba sendo o personagem negro do papel.

Desde o início, o filme impacta com a história da atriz Isaura Bruno. Ela interpretou a famosa mamãe Dolores da novela O Direito de Nascer, grande sucesso nos anos 1960. No entanto, mesmo tendo feito tão importante papel na época, morreu pobre e ignorada. Isaura Bruno depois de participar de outras novelas, acabou vendendo doce na Praça da Sé, em São Paulo.
São
situações que, a meu ver, se misturam com a história do Brasil naqueles tempos; o país era essencialmente agrícola. A cultura se esforçava para acontecer através do novo meio, uma caixa tecnológica recém surgida e que poucos podiam ter, o equipamento televisão. Muitos valores que já vinham sendo trabalhados pela literatura, ainda careciam de disseminação e muito trabalho. E o que a TV fez por isso? Bem, segundo Titãs…
Pode ser que sim, porém, com o tempo assisti coisas boas na TV, programas de qualidade, documentários feitos por competentes jornalistas. Enquanto a TV no seu início engatinhava, creio que batia nela o reflexo da própria humanidade que ia se engajando nos tempos. A todos nós, por termos origem, mesmo longínqua, em padrões comportamentais tão rudes e severos, faltou
características essenciais para boas relações, como o diálogo, a compreensão, a sensibilidade, enquanto sobrepunham a ordem e o medo. Nenhuma situação ameniza outra ou justifica, mas, enquanto mulheres, somos até hoje subjugadas por alguns que insistem no erro. Conforme eu disse, o assunto é vasto, principalmente quando ele soma uma característica e outra e outras.

Ana Muniz

A Pessoa é para o que Nasce. Brasil. 2004. 90 min. Direção Roberto Berliner. Co-direção e edição Leonardo Domingues. Roteiro Maurício Lissovsky. Trilha sonora original e maravilhosa de Hermeto Pascoal.

A Negação do Brasil. Brasil. 2000, 90 min. Direção e Roteiro Joel Zito Araújo. Com Milton Gonçalves, Zezé Mota, Ruth de Souza, João Acaiade, Maria Ceiça e outros.

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Referência É Tudo Verdade, os dois documentários podem ser vistos também aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=8W1pQK0Mb6c

https://www.youtube.com/watch?v=PrrR2jgSf9M

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