Ser e Ter

20200309_183812Faz um tempo que queria rever este filme e consegui agora. É de 2002, e o que ele nos diz para valer a pena assistir em qualquer época e tomar as nossas conclusões?

Um professor , cinquenta e poucos anos, dá aulas há 35, e naquela pequena comunidade rural francesa há 25, e aquele ano que assistimos é o último que antecede à sua aposentadoria. Seus alunos são crianças no ensino primário e secundário, e convivem na mesma sala, cada um com a sua turma.

Enquanto A Caminho da Escola destaca o esforço que a garotada empreende no percurso que leva às salas de aula, Ser e Ter propõe a observação da figura do professor em relação àqueles serzinhos que estão ali para aprender e que chegam de carro escolar, sendo cada um apanhado em sua casa.

O professor é o primeiro a chegar na sala e é à noite que prepara as aulas do dia. É um profissional dedicado e sua responsabilidade vai além de ensinar as primeiras letras e sílabas e a tabuada.

No mesmo tom de voz e com delicadeza ele dialoga com os alunos menores e maiores. Procura desfazer os conflitos entre os meninos, ameniza as contrariedades, aproxima os diferentes, seguindo princípios de concórdia.
Quando percebe a dificuldade de um aluno ou aluna, o mestre não vacila, atento a tudo, aos gestos e olhares, ele está presente e se manifesta. Coloca-se à disposição mesmo fora dos horários de aula. Seu desejo é que todos se superem e atinjam o máximo possível desta fase escolar tão importante para a formação do ser.

A escola é longe de tudo e é nesse ambiente e em torno dele que os pequenos aprendem a ler e escrever, a praticar esporte, e experimentam diversas artes, das tintas, das aventuras às escondidas entre subir em cadeiras, xerocar livros e quebrar a máquina de copiar.

Os pais das crianças as entregam ao carro com destino à escola onde o professor as recebe e dali pra frente ficam aos seus cuidados, com exceção quando a vivência inclui a família. Há também os encontros entre professor e pais, mesmo que a presença da mãe seja mais evidente. São pessoas rústicas, que vivem na área rural, trabalham no rural e têm nítida dificuldade em ajudar os filhos nos deveres de aula.
As relações do passado ainda se identificam com as que conhecemos hoje, muitas vezes mudando apenas o cenário, isto é, não só no rural, mas no urbano isso pode acontecer, dos pais não conseguirem orientar os filhos nas tarefas.
Por outro lado, pergunto, o quanto os pais dialogam com seus filhos na vida real, assim como aquele professor conversa com seus alunos orientando-lhes a respeito de comportamentos? A atitude daquele professor é colaborativa em relação à educação em casa, e, então, mais uma pergunta, o quanto os pais participam da vida escolar dos filhos para colaborar com a sua (con)vivência na escola ?

Ao ambientar o lugar informando onde se passa a história, o diretor mostra no início do filme uma das famílias lidando com o gado que ficou agitado com um barulho.  As pessoas, enfrentando as circunstâncias do tempo, comandam os animais para que caminhem agrupados para algum lugar. A seguir passa para uma sala de aula, quase vazia não fosse duas tartarugas que passam de um lugar ao outro. Acompanhamos a lentidão dos bichinhos que andam, param e seguem.
Nestas cenas, assistimos à introdução do filme, e isso me lembra uma parte de Sociedade dos Poetas Mortoscitada neste link . Lá, os pássaros acidentais criam uma metáfora com a uniformidade dos alunos e fica claro que o aprendizado acontece através de métodos dinâmicos. Ser e Ter, que se trata de séries primárias, não é diferente ainda que o voo seja mais baixo, os animaizinhos vão pelo chão. São os primeiros anos escolares. (Ou estamos a passos de tartaruga em relação à educação?)
Estes dois filmes nos passam que ensinar requer um certo tom que envolve equilíbrio e paciência.

Quando a tartaruga levanta a cabecinha e a cena seguinte é uma esfera global, um globo terrestre, não pude pensar em outra coisa: Ai! Que mundo é esse? Mas, o inocente animal não se relaciona com o objeto da mesma forma que o ser humano, e então, ao comparar as duas cenas, vejo o que há para explorar entre a ignorância e o desconhecido.

Os movimentos dos galhos lembram braços, pernas, corpos que dançam ao som da música suave, enquanto as árvores parecem testemunhar o tempo. O lado de fora proporciona um tipo de conhecimento que cada um traz para a escola. E assim, podemos entender que o filme nos diz que aprender é algo possível para todos e não se limita ao ambiente fechado. Aquele espaço de sala de aula é o que está aberto para receber a pessoa que ensina e as que vão receber o ensinamento, proporcionando mais conhecimentos. Os do currículo escolar.

As crianças levam para a sala a curiosidade e a sinceridade infantil : Você é meu amigo ? _ Não!   E entre a alfabetização e o despertar da criatividade, aprendem outras disciplinas de convivência em grupo através de diversões e experiências, brincam na neve, cozinham, e são orientados a respeitar: Sim, meu senhor! Como em Sociedade dos Poetas Mortos: “Senhor Keating”. Isso denota que ter respeito é algo fundamental nas relações.

Ana Muniz

Pra quem não viu, este filme tem na internet; conferir no Youtube.

Ser e Ter (original Être et avoir), 2002, documentário, 1h 44min. Diretor e Editor Nicolas Philibert. Com Georges Lopez e outros.

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