Rua Cloverfield, 10 tem três roteiristas que trabalharam muito bem para nos deixar atentos ao que poderia acontecer. O clima, que se torna cada vez mais tenso, desde o começo reveste-se de certo tom, induzindo a uma profusão de sentidos.
É uma brincadeira séria. Na primeira imagem, a produtora Bad Robot protagoniza-se em meio às plantações na figura de um robozinho do mal. Passa rápido para a esquerda, volta e para à nossa frente, nos encara: E aí, vai acreditar? Ou, vai comprar a minha ideia?
Nas cenas iniciais, Michelle (Mary Elizabeth Winstead) junta seus pertences em uma mala, muito rapidamente, parece ansiosa. Uma ventania passa pela janela e derruba sobre a mesa o retrato dela e o namorado Ben (Bradley Cooper).
O fenômeno físico nesse momento parece indicar a turbulência emocional que passa o casal, que leva a mulher a abandonar a casa deixando chaves e o anel sobre um móvel.
Como está claro na descrição do fotógrafo em Janela Indiscreta (“Rear Window”, 1954, Alfred Hitchcock), a câmera de Rua Cloverfield, 10 também percorre o ambiente de tal personagem e nos revela a sua ocupação que se liga a desenho, talvez moda, cortes…
A protagonista dirige pela ponte, pela estrada, para em um posto para abastecer; brigou com o namorado e não quer falar com ele, que liga insistentemente. Fugindo da relação, ela está indo para algum lugar, não revelado.
Na ficção, trabalha-se para chegar a um final preestabelecido, enquanto em documentário, o fim falsamente escolhido é apenas o lugar de parar…
Tal filme nos envolve em uma trama psicológica. Talvez Howard (John Goodman) seja um psicopata “generoso” e hiper-realista. Ou não. Qual é a nossa realidade? Qual é a nossa perspectiva? O que nos da medo? Do que precisamos nos proteger? Quem está contra nós?
Estas não são perguntas do filme. Mas, outras tantas podem ser somadas a elas ao ver Rua Cloverfield, 10. Há um emaranhado de fios que se entrelaçam em poucas palavras e muitas ações, próprio do que é bom nesta arte específica. É um jogo e literalmente o jogo que entra para “passarmos o tempo”, um tempo que deveria sempre ser bem aproveitado – de acordo com o roteiro.
Assim, quem quiser vai saber reconhecer e jogar o jogo que se passa na tela, tirar proveito de seu conteúdo, do que tem de melhor. Isto se aplica ao sentido da vida, na atitude que se toma para não se arrepender de algo que não fez.
… E o que os personagens mais fazem “ali” é passar o tempo… Um tempo marcado por diversos sentimentos, entre eles: desconfiança, insegurança, incerteza, dúvidas.
Tal proposição leva-me a uma poesia do século XIX, do romântico Francisco Octaviano de Almeida Rosa (1825-1889):
Quem passou pela vida em brancas nuvens,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.
Da mesma forma que a estrofe acima se apropria de metáforas, o filme também o faz para expressar as diversas possibilidades.
Arrisco dizer que há pelo menos uma resposta dada na narrativa através do tipo de “arma de combate” utilizada no final por Michelle, mas não vou tocar no assunto.
O produtor J.J. Abrams manteve no nome: Cloverfield, que é o nome de outro filme produzido por ele, Cloverfield: Monstro (“Cloverfield”, 2008). Tudo indica que está criando uma espécie de franquia, série ou algo parecido, coisas de marketing, cuja palavra está ligada ao local onde se encontra a sua produtora. De outra forma, o termo sugere uma referência a Rosebud, pronunciada no suspense de Orson Welles, Cidadão Kane (“Citizen Kane”, 1941), que permeia todas as ações.
E assim, as histórias vão sendo reescritas, reinventadas.
Informações adicionais (dados da Internet): Entre outros filmes, J.J. Abrams é diretor e roteirista de Star Wars – O Despertar da Força (2015) e produtor de Star Treck (2009). É o primeiro longa do diretor Dan Trachtenberg. Antes, dirigiu dois curtas Portal: No Escape (2011) e Kickin’ (2003); e um episódio para a série BlackBoxTV: More Then You Can Chew (2001).
Ana Muniz
Vídeo de 3 s: Imagens do filme/Ana Muniz.
Rua Cloverfield, 10 (original “10 Cloverfield Lane”), EUA, 2016, 103 min.
Ficção/Suspense. Direção Dan Trachtenberg. Roteiristas Josh Campbell, Matthew Stuecken e Damien Chazelle. Atuam: John Goodman, Mary Elizabeth Winstead, John Gallagher Jr., e outros.

Uau! Estou em choque ainda. No final estava difícil até de respirar. Obrigada pela dica!
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De nada, Clau. Adorei escrever.
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Agora sem estar anônima: de nada, Clau. Adorei escrever.
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