DECÁLOGO é uma série de TV de 10 episódios com 55 minutos cada. Versam sobre os Dez Mandamentos e abordam questões essenciais do ser humano como ética, política, religião, estética… Cada filme aborda questões ligadas a como o ser humano lida com os preceitos de Deus, a influência na sua vida, na relação com o outro e com as coisas da natureza.
Destaque para aquele que passeia pelas histórias e torna a temática mais instigante: Um observador (Artur Barcis) está presente em vários momentos do capítulo I ao IX (Por que não está no X?). Este homem que ora passa, entre outros modos, de bicicleta, remando um barco, sempre mudo, às vezes esboçando um leve sorriso, observa e pontua situações, às vezes compadecendo-se delas…
I – Amar a Deus sobre todas as coisas
Através da história de uma pequena família, pai, filho de uns 10 anos e tia, irmã do pai, Kieslowski propõe pensarmos a respeito do que está além da física. O pai, racional, duvida da existência de Deus, enquanto a tia acredita e o menino questiona. Haveria um Deus que tudo vê e que parece provocar situações fora do controle humano? Haveria um Ser Maior que pune pela desobediência, além de testar sua criação ao máximo? Para mim, entre outras questões, ficam no ar Como amar a Deus se não acredito nele? Deus existe? Por que vivemos?
II – Não pronunciar Seu santo nome em vão
A trama gira em torno de um médico e uma vizinha, Dorota, cujo marido está hospitalizado à beira da morte e aos cuidados de tal médico. Há dois anos Dorota atropelou o cachorro do médico e isso torna a relação deles mais delicada, no entanto ela precisa dele, quer saber se Andrzej vai sobreviver. Grávida de outro, a mulher resolve abortar esperando que ele vá viver, mas recebe a notícia desenganadora do médico, que “jura” dizer a verdade. Um inseto, a metáfora maior do desfecho, emerge de um líquido avermelhado dentro de um copo e através do canudo chega à borda. Esta cena, em relação ao que o médico afirma, indica a sobrevida e que a palavra do homem não é a palavra de Deus ou do Mistério que circunda em torno das incoerências humanas. Nas duas primeiras partes, a mesma pergunta é formulada: Você acredita em Deus?
O fogo, um elemento constante em toda esta obra, pode indicar a passagem do humano, sua regeneração na terra, tudo é perecível e tudo é transformável…
III – Guardar domingos e festas de guarda
É infringindo o mandamento oitavo que Ewa passa sua noite de Natal. Seu papel na história não é nada confortável: É amante de homem casado e não se conforma em passar a noite natalina sozinha enquanto todos festejam. Ela faz tudo para não ficar só e na companhia de quem escolheu. A missa do galo é apenas uma passagem para chamar a atenção do taxista. Todos guardam, ela não…
IV – Honrar pai e mãe
Anka ou Anna, órfã de mãe, foi criada desde os 5 por um homem que dizia ser o seu pai. Aos 20 anos suspeita que ele não é. Ao longo da fase adulta percebe mais pelo silêncio e afastamento de Michal que havia alguma coisa entre eles que também a tocava. Desde o início, na cena que ele joga água nela, dá para perceber algo no seu modo de olhar para ela, mas ele sempre recua. Há respeito. Há diálogo. Mas há, finalmente, dúvida, ela mente? Se o homem do barco, indica a possibilidade da presença de um Ser Maior, Deus, o que ele não leva no barco vazio a remar? Que barco é esse que ele tem que carregar nas costas?
V – Não matarás
O episódio coloca em questão a pena de morte. Três personagens, um advogado, Piotr Balicki (Krzysztof Globisz) no início de carreira, um taxista, Jan (Waldemar Rekowski) que evita certos passageiros e um jovem andante Jacek (Miroslaw Baka) protagonizam a história. Quando o andante entra no taxi, já temos informações suficientes para sentirmos familiarizados com tais personagens. O motorista, que foge de passageiros, não perde oportunidade de debochar de situações, mas é do bem. Se não fugisse de certos clientes talvez tivesse destino diferente. Foi castigado? O andante é um procurador de encrenca; tem alguma sensibilidade, e é do mal. O advogado enfrenta o primeiro caso jurídico, é muito competente e humano.
Achei o filme impressionante. Destaco o esmero na descrição da sequência do encarregado da sala de enforcamento, desde o modo como anda na entrada do presídio e na sala mortífera; o preparo da sala; checagem dos objetos que serão usados: a lubrificação da engrenagem do aparelho de forca; o nó da forca, seu posicionamento; o teste de abertura da porta de queda do corpo degolado… Mas, há um probleminha… A cortina está emperrada! Não há perdão!
Quanto ao advogado recém formado, vale destacar também, que, segundo o juiz, ele fez uma brilhante defesa: Dá para sentir como é difícil a relação do profissional na situação pós sentença. Piotr – única conexão entre Jacek e, no caso, a mãe – ouve o condenado pela última vez antes do desfecho e tenta prorrogar isso o que pode…
VI – Não pecar contra a castidade
O leite é outro elemento reincidente entre os episódios. Neste, dentro do próprio filme há uma abundância de litros do líquido. Há que buscar o significado desta simbologia dentro do contexto…
Todos os episódios são bem marcantes por suas histórias densas, e este vai longe talvez pelo que representa Tomek (Olaf Lubaszenko). O garoto personifica o desejo latente. Lembrando de Janela Indiscreta (“Rear Window”, Hitchcock, 1954) a tessitura dramática de Kieslowski continua provocativa, levando o espectador a pensar a respeito das Leis Divinas. Há um Deus que tudo vê? O papel de Magda (Grazyna Szapolowska) é revelar o pecado…
Se o leite representa uma espécie de alimento do que é novo, na fartura dele não estaria implícita a escassez em relação ao mandamento em si, de ausência do cumprimento da lei? E assim, Deus punirá quem estiver fora de seus princípios e ao mesmo tempo dá a todos, através desta mesma simbologia, a oportunidade da regeneração…
VII – Não roubarás
Um erro do passado deforma o presente. Mais do que um roubo, a complexidade da situação. Não se rouba apenas um objeto, uma coisa, mas é possível dilapidar a essência de uma pessoa, sua alma, sua dignidade, sua identidade, sua integridade.
A conturbada relação de mãe e filha, onde se opta por resolver uma situação não planejada de forma incorreta coloca vidas em risco…
VIII – Não mentirás
Uma professora cuja história passada entrecruza com a de uma pesquisadora americana e tradutora de suas obras, que a procura, e retornam aos lugares daquele passado há 40 anos, em 1943, quando a menina de 6 anos, judia, procurava abrigo com seu tutor, negado pela então professora, mas como “porta-voz” de seu marido que alegou motivo religioso. No encontro, a verdadeira razão é esclarecida.
A história é entorno do legado da Segunda Guerra Mundial: Muitos traumas, silêncios, isolamento… Culpa…
Destaque para como “aparece” o observador/testemunha que ronda pelas histórias de 1 a 9. Neste, ele “aparece” mesmo. Se revela? A câmera ao mostrar os alunos nos seus lugares, faz um movimento que mostra que atrás e entre dois deles há uma mesa/cadeira vazia. Na mesma sequência, em outro momento, outro movimento deixa ver o mesmo lugar com o homem/observador. Em outras palavras, onde está o personagem, antes não havia ninguém. Não houve nenhuma alteração na sala; foi uma escolha do diretor…
IX – Não desejar a mulher do próximo
Romek, médico, casado com Hania, recebeu o diagnóstico de que não poderá mais “transar”. Ao ter certeza dessa impotência começa a ter atitudes de insegurança e descontrole. O livro de física representa a intromissão de um alheio no seu casamento. A mulher, que ama o marido, acha em um rapaz bem mais novo o que aquele não pode dar a ela, até que esta o descobre derruído por ter descoberto a traição.
O resultado de quem não respeita o mandamento pode ser catastrófico. Tudo depende da vontade de Deus?
X – Não cobiçar as coisas alheias
Tenho a impressão que neste último episódio, o diretor sentiu o sabor de uma obra realizada. Arthur abre o filme cantando uma música, tipo trash, que incentiva as pessoas a roubar. Com isso, Kieslowski não estaria aludindo à própria obra que, concluída, os espectadores podem retirar delas o que lhes convêm? Afinal, como pergunta o roteiro: “Por que há pessoas tão ávidas em possessões?” Ao disponibilizar sua obra, ela deixa de ser apenas do autor e ganha novas fronteiras. Então, se o enterro no início é de sua série que se concretiza na 10, é um “morrer e nascer para a vida eterna”, uma possibilidade que faz prevalecer os valores imateriais em relação aos outros.
A visão que o diretor tinha em 1988 é muito atual, incluindo seus planos, detalhes de luz…
Nesta simples abordagem e levando para o lado prático, entendo que tal enredo induz a pensar que, embora nos prevenimos, estamos sujeitos a sermos subtraídos materialmente, e assim, faz bem quem não acumula objetos roubáveis, pois, atrai cobiçadores e ainda a reunião desses valores não traz nenhuma riqueza ao dono, que acaba morrendo e não usufruindo do que tem.
Ana Muniz
Imagens: Frames dos filmes.
Decálogo (“Dekalog”, produção 1988, exibido a partir de 1989). Polônia. Direção: Krzysztof Kieslowski. Roteiro: Krzysztof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz
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