Incomoda muito este filme. É cruel. Mas, é uma “realidade” que temos que encarar para conhecer essa adaptação para o cinema. Faço algumas associações, que para mim são inevitáveis, com partes do livro O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir.
No que toca às relações de gênero, pode-se buscar no filme elementos que remetem ao pensamento da autora no livro citado. O próprio filme nos dá pista de modo explícito, ao mencionar o nome da escritora, mesmo em tom perverso.
No contexto social em que vive Michèle (Isabelle Huppert), e
la se coloca na vertical, convivendo com um histórico de vida mais inclinado ao baixo, do que decorre a vontade de se refazer. O filme se mantém com o foco em “ELA” e demonstra que a vontade da mulher prevalece mesmo tendo que enfrentar contrários. Seu livre-arbítrio é exercido a ponto de incomodar…
Talvez por manter implícitas ideias transmitidas às mulheres entre os séculos é que Michèle Leblanc continua tão apegada ao ex-marido, do qual, provavelmente, não teria separado se ele não a tivesse agredido. Ao mesmo tempo, especificamente nesse caso, através da separação, uma mulher em potencial ressurge das cinzas do desenlace, praticante do bem e do mal.
Na posição de uma executiva, é dona de uma empresa de Games, ambiente jovem e amplamente masculino, é ela que sempre dá a primeira e a última palavra, enquanto faz interferências para obter as melhores soluções para os produtos, conseguindo assim ampla antipatia dos funcionários.
É uma mulher forte que incomoda o mundo masculino por sua posição ativa. Não se apega aos mitos religiosos como outra personagem coadjuvante; se desinteressou do casamento tradicional, ao contrário de sua mãe; não usa subterfúgios para “agarrar um homem”, como a namorada do seu filho. ELA não tem escrúpulos, trai a amiga mais próxima, nada a inibe, é determinada nas suas relações com homens: “Tem que ser comprometido com outra”; não quer vínculos.
O patético do filme está no preço que ela paga, injustamente, pelo que sua presença provoca ao outro sexo. Está em jogo o oposto, a crueldade masculina, o doentio… Mas, sem juízo de valor, isso é caso para psiquiatras. A história de Michèle está implicada em constrangimentos familiares vividos, que talvez a tenha levado a um tipo de recolhimento, abrigando-se em um mundo que não cabe sentimentalismos.
Contudo, pelo que é e sua postura, e pelo que sabemos culturalmente, a personagem principal demonstra que o ser humano é feminino e masculino. Ambos atuam em um tempo e espaço, dentro de um universo de possibilidades. Ela nos faz ver que na mulher reside aquilo que foi dado ao pertencimento absolutamente masculino e que no entanto é da natureza humana. Ela é uma pessoa de sucesso, tem dinheiro, tem poder, e sua vida é pautada na liberdade, ainda que fira padrões estabelecidos, mas isso talvez seja algo que ela tem que superar…
Deixando muitos detalhes para trás, através de Michèle nos deparamos com uma lição beauvoiriana de que a mulher tem que se colocar na sociedade, valorizando-se, concomitantemente ao seu gênero. Ao contrário do que se pretende ao seguir o estabelecido por sociedades ultrapassadas que coloca a mulher como um ser subjugado.
Tantos outros pontos a serem observados: o sentido da morte é insignificante, é banal, basta que algo incomode surge o desejo de matar…
É filme. É ficção. Mas, é um exemplo de vida…
Ana Muniz
Imagens: Frames do filme.
Elle (2016), França/Alemanha/Belgica, 2016, Drama, 2h 10min. Direção: Paul Verhoeven. Adaptação do Romance “Oh…” de Philippe Djian. Roteiro: David Birke. Atuam: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling e outros.
Obrigada por comentar!