
Assistir a este documentário em silêncio, é o que sugiro. Infelizmente não é o que está se passando comigo. Em alguns momentos, meu vizinho – além – faz muito barulho que chega até aqui, razão que me fez interromper o filme para vê-lo no momento seguinte, mais apropriado.
Para mim, o que conduz a trama, mais que a educação, implícita ou explícita, como um tema secundário, é o silêncio. Fui conduzida pelo silêncio e este me levou a alguns lugares de sons, a algumas pessoas, situações, a algumas falas, e até a um discurso do estrangeiro que testemunha o porquê de terem deixado seus lugares de origem.
Ao iniciar, sobre uma tela preta, o silêncio traz escritas palavras introdutórias, o espaço geográfico, a dimensão, localização e o foco que originou esta produção cinematográfica.
O silêncio da ausência do estrangeiro, quando o menino está no mato, o som do vento, do pisar, dos pios dos pássaros, da faca que corta o galho…, dá lugar ao som dos equipamentos que se movimentam ao vento e à voz de um vigilante do mar, no momento em que se comunica com os estrangeiros que se aproximam em um barco…
De outra forma, o silêncio é corrompido pelo barulho do vaivém da motocicleta de Mattias, perturbando o silêncio e desafiando nossa tolerância ou nos fazendo questionar o quanto podemos conviver com tais interferências.
O filme não tem uma trilha sonora musical. A Ilha tem uma emissora de rádio. A primeira música chega de forma direta, uma canção italiana, mas a ouvimos de dentro da cabine da rádio que a toca, onde o roteirista nos coloca. Dali, o som repercute na cozinha, em que a personagem faz comida e ouve rádio, posicionado ao lado da pia. Em outro momento, ocorre o inverso, a música chega antes, mas, era o que ouvia a mesma personagem através do rádio, e finaliza dentro da cabine, para indicar a origem do som.
Através da família do filme conheci um pouco do cotidiano daqueles cristãos. Ao traçar um paralelo, família local/situação mundial, nos aproximamos da solidariedade do povo dali, a paciência e demonstração de humanidade através dos atendimentos socorristas, médicos.
Samuele, o garoto que atravessa a história desde o início, enxerga bem do lado direito, mas tem dificuldade de enxergar pelo olho esquerdo. Observando que a narrativa, embora seja um documentário, é uma construção de acordo com as escolhas do diretor, pergunto, por que um problema de visão “seria” importante no contexto, se se trata principalmente de refugiados que se alojam temporariamente na Ilha? Prosseguindo:
Uma questão que não é meramente técnica:
Por que a quebra de eixo da câmera no momento em que Samuele tampa o olho e aponta o estilingue para o lado direito do vídeo, em plano conjunto, e no plano seguinte – geral da mesma cena, o menino está apontando para o lado esquerdo do vídeo? Lembro que a manutenção do eixo de visão faz com que os espectadores acompanhem a cena e entenda a direção do movimento, portanto, a quebra, cria confusão. Mas, voltando à questão do olho direito e esquerdo, que importância tem se ele atirar para um lado ou outro, se o que está em jogo é atirar, é a guerra e o que ela provoca?
A ILHA DE LAMPEDUSA
Situada à costa meridional da Itália, a Lampedusa pertence ao arquipélago das Ilhas Pelágias, no Mar Mediterrâneo.
Há pelos menos duas décadas o arquipélago passou a ser o primeiro porto italiano na rota dos refugiados da África e do Oriente Médio.
Atraídos pela beleza do lugar, no início de 1990, turistas intensificaram suas idas às praias paradisíacas, fazendo com que o turismo se destacasse na economia local, junto ao que é próprio dali, a agricultura e a pesca no mediterrâneo. Mas, em poucos anos, os moradores tiveram que enfrentar novos desafios dos tempos: os mais de 5 mil habitantes da ilha tiveram sua rotina interrompida devido aos eventos constantes que trouxeram através do oceano milhares de pessoas foragidas da guerra. Estas, em trânsito, com destino à Europa, passam por um período de permanência na Ilha, devido às circunstâncias de embarcação, que duram alguns meses, até conseguirem embarcar.*
Ana Muniz
Imagens: Frames do filme.
*Dados: Internet.
Fogo no Mar (Original “Fuocoammare”), 2016, Documentário. Itália/França, 1h 54 min. Diretor, Fotografia, Som e Roteiro: Gianfranco Rosi; Argumento: Carla Cattani. Com os próprios protagonistas, entre eles: Samuele Pucillo, Mattias Cucina, Samuele Caruana, Maria Signorello, Maria Costa.
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