Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica

As primeiras sequências do filme apontam para tempos passados, e pensei, estaria Unamuno com razão quando escreveu que o melhor tempo foi aquele que passou?

Como um pai doente à beira da morte poderia promover uma ajuda na formação do filho pequeno, antes de morrer? No filme, o menino era muito novo quando ele morreu. Mas ele deixou um legado, pois desejava que esta criança tivesse uma visão geral do mundo anterior para compreender melhor o seu presente.

Por sua vez, o filho, que completa dezesseis anos, sente a falta do pai. A falta é o que move todo filme. O menino faz planos, quer ter o pai como referência, mas tem lacunas, ele não teve uma vivência com seu genitor.

O filme traz inicialmente uma síntese da história da humanidade desde o advento do fogo, cuja primeira chama, para a ficção, acontece por um ato de magia. Através do fogo virão outros acontecimentos verdadeiramente importantes que interferem diretamente no modo de vida das pessoas. O fogo mudou toda a história dos humanos e passou a ser usado para o bem e para o mal.

A animação ressalta por imagens que tivemos revoluções tecnológicas desde a revolução industrial nos séculos XVIII e XIX e após o século XX, que nos trazem todos os equipamentos eletrônicos e as novas tecnologias que conhecemos.

No bilhete do pai, compreendo certa preocupação com a vida do filho neste presente onde tudo mudou, principalmente após o advento dos smartphones. Entendo que. para o pai. os acontecimentos mais recentes estão cada vez mais longe do passado, de sua origem, da sua relação com a natureza e portanto distanciado do belo. Mas como um pai que já morreu pode compartilhar com um filho, que deixou pequenino, a importância do conhecimento?

A introdução dura alguns minutos até quando aparece o grande cogumelo, como eu vejo, que é a casa de nossos personagens, cuja janela tem as linhas do símbolo dos MacDonald’s. Este símbolo está visível em várias cenas seguintes. Em diversos planos a janela está ao fundo, inclusive em um plano próximo, isto é, onde aparece o desenho bem de perto.

A velocidade, os percursos percorridos, e as aventuras que só são possíveis por ser uma animação, fazem jus ao que é, pois dá ânimo ao espectador, que torce ou por um ou outro personagem.

O menino Ian, tímido, ingênuo, meio perdido, tem um potencial de crescimento que fica evidente quando demonstra como lida com a perda do pai. O garoto sente a ausência paterna com quem gostaria de compartilhar seus interesses e desenvolver a sua personalidade. Quando a vida lhe oferece uma oportunidade de ter o pai por um dia ele focaliza no objetivo e junto com o irmão adentram ao mundo da magia para alcançar esta possibilidade. O irmão mais velho, na puberdade, é o seu oposto, é atirado, extrovertido, parece bruto inicialmente, mas no decorrer vamos acompanhar outras façanhas suas…

Paro por aqui. Agora é com vocês. Vão ver? Já viram? Não sei. É um dos bons filmes da Pixar.

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No começo, há uma cena do jornaleiro que passa de bicicleta e atira o jornal para as casas, e a seguir, quando termina de passar, um animal/unicórnio come os restos na lixeira das residências e outro se aproxima e começam a brigar pelos alimentos. Esta sequência me inspira a pensar que: Precisamos nos orientar, nos informar, conhecermos os fatos diversos, as diferentes opiniões, os interesses de cada um e criar a nossa, senão opinião, nossa sugestão. Dedicar menos àquelas notícias que chegam para nos iludir com interesses particulares. Temos que separar uma coisa da outra, buscar os porquês, como fazem as crianças. Para não ingerirmos lixo que mais produz confusões do que soluções.

Ana Muniz

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Original Onward) Animação/Aventura, 2020, 1 h 42 min. Realizador: Dan Scanlon. Roteiristas: Dan Scanlon, Keith Bunin e Json Headley. Vozes: Julia Louis-Dreyfus, Tom Holland, Octavia Spencer, Chris Pratt, Mel Rodriguez, e outros.

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