Filme “Trumbo – Lista Negra”, de Jay Roach.

Do papel para o papel – A vida do roteirista Dalton Trumbo (1905-1976)

fig 1

É uma metalinguagem – o filme narra sobre o próprio meio.
O texto na tela preta inicial situa a obra no tempo e espaço. Tem o objetivo de deixar claro a época de que se trata, o país envolvido, e a situação política abrangente. Contextualiza. Nele, contém o nome do personagem Dalton Trumbo, cuja profissão de roteirista é também evidenciada, além de suas tendências ideológicas. Assim, o impulso que conduz às primeiras cenas é dado pela literatura, cuja arte de escrever é contemplada durante todo filme.
A introdução vai além da simplicidade e adianta algum tempo de filmagem, que resultaria entre outras razões no encarecimento da produção.
Tais cartelas (escritos sobre a tela preta) significa que o elo entre cinema e literatura, que vem desde o surgimento do primeiro, não foi rompido, que perdura hoje em dia como marcas dos filmes silenciosos que trazem intertítulos.
Por esta demonstração, o recurso estético coaduna com as informações que se lê e estabelece um elo com a época mencionada.

fig 2

O cenário da primeira cena é uma casa de “algum” milionário de Hollywood. No cinema há sempre ligação entre uma imagem e outra, deste modo, quando muda do geral do magnífico lugar para o particular, Trumbo dentro de uma banheira, subentende-se que tal roteirista é bem sucedido. Nas cenas seguintes vamos entender que ele tem o hábito de escrever nu dentro d’água; é uma atitude comportamental praticada no ato da criação.

Na apresentação do personagem, a câmera percorre o ambiente em que ele está, há vários cartazes de filmes, reafirmando o êxito na carreira, ao som de uma música suave e o teclar da máquina de escrever; ele escreve incessantemente um roteiro, fumando com piteira.

A passagem da cena do roteiro sendo escrito para o set de filmagem demonstra a transformação do texto em representação. Com o roteirista presente nestas gravações, o ambiente de trabalho mais que o clima entre as funções, revela os contrários e insere ao instigante contexto político.
Com a câmera rodando, naquela época era película, o objeto usado na cena não funciona como deveria e causa uma parada. Isso gera um comentário do intérprete: “Logo hoje que o autor está conosco”. O diretor não hesita em manifestar antipatia pelas convicções partidárias de Trumbo, que depois vamos testemunhar, e responde algo assim: se você diz que é “conosco” é porque “com certeza ele não é um de nós”.

É séria a resposta do escritor ao ator quando diz que seu personagem é um homem que luta pelo social. Mas, o artista discorda, alertando que estão na América, e que o interesse deles passam por “amar” sexo e dinheiro. O roteirista não contesta, ele sabe que não é o momento.

Os comentários acima são apenas uns toques para começar a ver o filme ou a compreender sob uma certa ótica. A época que a história contempla e situa as conturbadas produções americanas é dada por quanto o capitalista EUA tinha que se sobrepor ao conceito estabelecido pela sua rival, a União Soviética, comunista.

O filme é uma adaptação do livro biográfico “Trumbo”, de Bruce Cook, 2015. Lembro, portanto, que em meio aos grandes e consagrados filmes americanos realizados entre as décadas de 1930 a 1970, estão Arenas Sangrentas, Exodus, Papillon, A princesa e o plebeu, Adeus às Ilusões, Nosso Amor de Ontem… Todos roteirizados por Dalton Trumbo, que tem uma bagagem de mais de 30 roteiros transformados em filme.

Ana Muniz

Imagens: frames do filme.

Trumbo – Lista Negra, (Brasil, 2016) (Original “Trumbo“, EUA, 2015), 2h 4min, biográfico, ficção. Direção Jay Roach; roteiro  John McNamara; adaptação da obra homônima de Bruce Cook. Atuam: Bryan Cranston, Michael Stuhlbarg, David Maldonado, Diane Lane, entre outros.

 

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