Queimada!

O filme é um salto dos livros de história para a tela. Lembro da historiadora Emília Viotti no seu livro Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue (1998), no qual ela relata a grande revolta dos escravos ocorrida na ilha de Demerara, na Guiana Inglesa. Nele, a professora relata a ida de John Smith, religioso inglês, à ilha, com o objetivo de passar aos índios os seus saberes. John Smith e o personagem também inglês William Walker (Marlon Brando) do filme Queimada!, que é uma das ilhas do arquipélado das Antilhas, teria alguma semelhança?

A rebelião narrada por Viotti ocorre em 1823 e Queimada! mais ou menos vinte anos após e nessa época os índios já haviam sido exterminados naquele local pelos civilizadores europeus*. Como ocorreu em tantos lugares, até e inclusive no interior de Minas Gerais, onde nasci, isto é, onde havia indígena o “branco” exterminou nas lutas pelo predomínio no território. Branco?

William Walker quando chega à fictícia Queimada quem está ali e escravizados são os africanos. Na falta da mão de obra dos índios, que não resistiram aos enfrentamentos, os invasores tiveram de ir à África buscar negros para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar.

No filme diz “Como os nativos foram mortos tiveram que trazer escravos da África”. Na verdade, eles não buscaram escravos, de uma forma ou outra, eles sequestraram africanos e os fizeram escravos para trabalhar nas plantações de cana. Mas nem todos chegam ao destino, segundo a narração, muitos morrem. Não aguentam os maus-tratos durante a viagem.

A multiplicação de um líder, isto é, o surgimento de outros além daquele, o José Dolores, estava entre os itens imaginados e temidos pelo inglês de Queimada. José Dolores, descendente africano, se torna um rebelde sob as orientações sub-reptícias e interesseiras de Walker. Este dado relacionado ao que incita movimentos, me lembra outro ponto do livro citado, cuja propagação da rebelião se dá através de informações por força do boca a boca dos rebeldes, que foi um modo de conscientização massiva, quando muitas vozes passam a ser operantes.

Embora tenha sugerido uma relação do pastor com Walker, eu vejo que são duas situações distintas. De fato, as histórias se relacionam, mas os eventos aconteceram de forma peculiar em cada localidade, e tinham ligação com a função de cada mensageiro e o que era conveniente ao país de origem, geralmente voltado para algum tipo de produção agrícola, onde a mão de obra escrava era fundamental.

Eu vi o filme Queimada! no cinema, acho que no Cine Arouche, há muito muito tempo. O que eu tinha em mente sobre ele era uma mensagem de que não havia uma luta racial, mas um jogo de interesses que me levaram a crer que as intrigas não estão na cor da pele, mas no que há além dela, a pessoa. Não é por ser branco ou negro que há embate, mas o enfrentamento se dá porque “eu” tenho um objetivo que quero alcançar e faço “daquele” que é frágil o meu “instrumento”, podendo ser ele, preto, branco, malandro ou…

O que mudou ao rever o filme hoje? Entre aquele tempo e este eu conheci um pouco mais de História. Então, eu pergunto, se a Inglaterra proibiu a escravidão nos anos 1930, por que continuou a praticá-la fora de seu território? Não seria a mesma coisa? Parece até que a trilha sonora de Enio Morricone que repete e repete a palavra “abolição” está clamando aos protagonistas da lei que è finita àquele tempo. Ou reitera pedindo que a liberdade aconteça.

Bem, isso são águas passadas. São? Nos importa saber hoje as lições e o que prossegue de atitudes relacionadas.

Observe a astúcia dos políticos do comando de Queimada em reunião. Observe o agente inglês. Se eu estivesse no meio daquela população afro naquele território, naquele tempo, eu seria uma peça manipulada dentro de um jogo. Todos os meus atos eram sabidos e programados. Se não fosse assim, eu seria uma peça fora.

Nós respiramos democracia! Precisamos dela como precisamos de ficção.

Termino aqui. O assunto não.

Ana Muniz

* No filme fala que são os portugueses que chegaram primeiro em Queimada, mas a intenção do diretor, segundo li, tratava-se de fato de espanhóis e por questões políticas Pontecorvo trocou pelos portugueses, sendo que a ficção tem o intuito de fazer referências à história do Haiti.

Queimada! (Burn!) EUA, Drama, ficção, 1969, cor. Direção e Adaptação Gillo Pontecorvo. Roteiro Franco Solinas e Giorgio Arlorio. Baseado no romance de Norman Gant. Música Ennio Morricone. Atuam Marlon Brando, Evaristo Márquez, Renato Salvatori e outros.

 

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