Quem é estranho e assustador, um esqueleto andando ou alguém vivo? Depende de qual ponto de vista. No lugar dos mortos o vivo é o que assusta.
Um vivo na terra dos mortos faz literalmente o queixo cair. É a imaginação dos roteiristas de animação que não tem barreiras. Os esqueletos falam, andam como mortais e se desintegram, como se quebrassem, para se recompor a seguir e continuar gesticulando e agindo como quem vive. Com muito humor, suas cabeças giram, os esqueletos das mãos se soltam e brincam as duas com a forma humana de acordo com a vontade do seu dono, um personagem “gente boa” do outro mundo, Héctor. 
COCO é o título original do filme. Por que os filmes que vêm para o Brasil, muitas vezes, ganham nome que nada tem a ver com o original? Aqui, trocaram Coco por Viva: A vida é uma festa. Não combina. Coco é a essência do filme. O nome brasileiro distorce a ideia principal da história. Tudo que Héctor quer é a chance de dar mais um abraço em Coco, cuja oportunidade lhe foi tirada.
Viva: A Vida é uma Festa se passa no México, mas todos falam em inglês, salvo exceções dada a palavras, por exemplo, “Abuelita!” (Avozinha!), quando Miguel leva um susto ao ver sua vó aproximando.
A história se baseia no real, pois, sabe-se que o Dia dos Mortos no México é excepcional. É comemorado com grande festa, com direito a fantasias de caveiras, muita comida e flores. Como no filme, acreditam que os mortos vêm visitar seus vivos, obviamente depois de passar por uma permissão. A ficção aproveita o caminho e explora o outro lado. O plano dos que foram não é tão funesto, mas, é algo do que temos na terra. Tem cantina, discoteca, cinema, loja, bar, música ao vivo, teleférico, guia espiritual, estação de trem, entre outros.
O filme não é abrangente, ele focaliza, recorta, ambienta, contextualiza e deixa os personagens se mostrarem. No meio da história dos Rivera, que imediatamente pensamos no pintor mexicano Diego Rivera (1886-1957), há uma Frida Kahlo (1907-1954). A personagem que a representa, na terra dos mortos, ensaia uma performance que fará na Praça de la Cruz. Ela idealiza o seu show.
Nesta sequência, o filme mostra um rápido instante de criação, um brainstorming (“e se tudo for fogo?”), que envolve sugestões de trilha sonora, ideia de montagem, de direção (“As dançarinas saem. A música some. As luzes apagam”).
Com muito bom humor, o filme parece explorar também a ideia de que o ser humano quer ser imortal, quer ser lembrado após sua morte. Talvez queira ressaltar o desejo que um tem de se perpetuar de alguma forma, através de filhos, de uma obra, de um feito. No entanto, para isso é preciso que ele marque sua presença em vida e permaneça na memória de vivos, senão será esquecido e morrerá “para sempre”.
Dia dos Mortos. Segundo a crença ficcional é o único dia em que os mortos visitam suas famílias vivas. Mas para isso acontecer as fotos dos entes tem que estar junto a oferendas expostas em um altar em suas casas. Então, neste dia, há todo um preparativo tanto na terra dos vivos quanto na dos mortos. Os mortos que não são mais lembrados, com o tempo, sumirão, terão a segunda morte, que não se sabe para onde vai.
O filme aponta: É preciso reverenciar os mortos. Temos ligação com eles e não devemos abandoná-los.
Héctor, que passa a ajudar Miguel a encontrar o que pretende, está sujeito ao esquecimento e a perecer de vez. É um sujeito sobretudo engraçado. Torcemos para que isso não aconteça.
Por um lado, revela-se o preço amargo do sucesso. Neste caso, são excluídos aqueles que não favorecem o caminho da fama, família, amigos. Por outro lado, a descoberta da família como o que protege, e essa descoberta vem através de uma relação de amizade.
Enquanto o menino Miguel persegue um sonho, o destino leva o filme a desvendar um crime sem ser policial, com ingredientes de magia e muita ação.
Não é através de investigação que Miguel descobre o parentesco com o seu ídolo. É por acaso. O cachorro de rua, amigo de Miguel, não pode ver comida e subiu no altar para comer a comida dos mortos. Miguel ao impedir provocou um acidente e nessa hora houve a ação da “mão de Deus”. O retrato que caiu e quebrou o vidro deixou fácil de ver a dobra que escondia o famoso violão, que fez o menino identificar que aquele homem cuja cabeça não aparece é o cantor, seu ídolo e, no contexto, seu tataravô.
Acho que o filme brinca (seriamente) com a linguagem dos primeiros filmes, quando remete à sombras. Lembrei do diretor F.W. Murnau (1888-1931), que faz parte do cinema expressionista alemão. Filmes mudos, em preto e branco, este realizador tinha como característica principal expressar os estados emocionais de seus personagens através da câmera. Ainda que minha preferência seja por O Último Homem ou A Última Gargalhada (Em inglês “The Last Laugh”, 1924), mas, considerando que estou pensando no filme COCO, observo alguns títulos afins dirigidos por Murnau e encontro O Castelo Assombrado (“Castle Vogeloed”, 1921) e Fantasma (“Phantom”, 1922). Mas, é em Fausto (Em inglês “Faust”, 1926) que provavelmente encontrou-se inspiração para as sombras que querem confundir os espectadores ou alimentar a ideia de que algo enorme, monstruoso, vai surgir, contra a vontade de quem assiste, no momento em que a sombra de um alebrije entra no túnel, no filme Coco. (Alebrije é um animal imaginário e faz parte da tradição mexicana). Nós, espectadores, não queremos que Miguel seja encontrado, estamos torcendo por ele. E Pepita, a farejadora alebrije, se aproximando de onde ele passou é uma ameaça. Nesse caso, a sombra atemoriza. No poço, ao contrário, o mesmo animal surge exuberante, e gostamos, pois é a salvação. Mas, como todos temos uma sombra, pode não insinuar outra coisa e surgir junto com o dono sem nada a acrescentar (cena do cachorro). Ou ser algo que distorce o tamanho e, de acordo com a perspectiva, pode parecer o que não é (cena do gato). É um jogo com a linguagem cinematográfica.
Então é isso. Se lerem, me avise, que vou gostar de saber.
Ana Muniz
Lições e alusões/Sobre temas secundários em Coco:
Quando alguém se encontra em ambientes estranhos, uma boa saída é se adaptar.
À mulher resta ser pai e mãe para cuidar de filhos quando o pai se ausenta.
Uma grande dor pode impulsionar alguém em busca de um sonho.
Pelos caminhos sempre haverá os que dão força e os que não.
Às vezes buscamos longe o que está ao nosso lado.
Cuidado com o que diz para crianças: Elas não esquecem e depois podem te deixar sem saída.
Uma velha máxima: As aparências enganam.
Ana, é sempre muito bom ler as suas observações. Ainda não assisti essa animação,. vou aproveitar o carnaval pra assistir. Gostei de saber sobre Murnau, a princípio não sei se conheço. Assisto muitos filmes , o cinema é uma das minhas paixões. Mas vou pesquisar. Obrigada por compartilhar seus saberes.
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Regina, eu é que agradeço por ler e comentar, deixar marcado sua presença. Gostei de saber que assiste a filmes frequentemente. É muito importante o feedback, anima, nos ajuda. Sem a presença de outra pess
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sem o compartilhamento recíproco a coisa fica meio sem graça. Abraços. (isto é uma continuacso, acho que o início da resposta foi)
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