Filme Francofonia, de Alexander Sokurov

postmuseuO Museu do Louvre protagoniza e é um coprodutor do filme. Independente de seu gênero, a realização se dá após uma intensa pesquisa: “Cerquei-me de livros e falo comigo mesmo”, diz Sokurov. A narrativa, que entrelaça o real e o fictício para nos trazer a história, flui alternando elementos passados e presentes. É menos documentário quando utiliza
elementos ficcionais. Tem lances históricos quando vai aos arquivos, livros, jornais, audiovisuais, fotográficos…

obraA voz off, por trás dos quadros, recua-se para dar lugar aos diálogos e sons de cenas provindas da imaginação ou de registros fatuais, mas também intervém no meio das cenas provocando uma compreensão mais rápida, auxiliando a montagem, na qual o diretor utiliza-se de recursos de transições entre as imagens, fusões, sobreposições, que cabem bem ao tipo de relato e ainda ressalta o cuidado com a estética. O modo que Alexandre Sokurov escolheu para tecer os fios da narrativa se insere  no campo do desejo de “como vou contar isto”, como o próprio relata dentro do filme ao observar as obras de arte: Trata-se de uma “busca pela melhor representação”.

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casalPleno de sonhos e espiritualidade. O filme tem ares de Jean-Luc Godard quando o diretor está presente na obra que está realizando e o vemos e ouvimos.
Há muitas reflexões e indagações… O que querem nos dizer os mortos? O que nos contam aqueles olhares? Qual é a relação do significado de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” com o que aquelas obras representam?

barcoA inspiradora encenação do barco transportando obras de arte, com a conexão entre mar e terra sempre caindo, além de conduzir e reconduzir o diretor no enredo, na relação com a história a conexão que se perde poderia ser uma metáfora dos navios que naufragaram no passado, perderam o contato, quando desapareceram para sempre pessoas e obras. Daí, o realizador faz insinuações ou perguntas provocativas: Ora, para que se arriscar no mar, quando vivemos em nossos apartamentos “aquecidos e confortáveis?” Porque tentar salvar algo se o caminho é perigoso? Valem os esforços?

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No contexto de Francofonia, o cineasta/personagem/narrador aparece em cenas representando o momento do levantamento de dados, da pesquisa, cuja produção “está em andamento”, como se fosse um making of, cujos acontecimentos vão sendo apresentados na forma cinematográfica, de acordo com a subjetividade de Alexander. Em alguns momentos, ele parece revelar que não está gostando do resultado… Mas, ficou bom, Sokurov!! Muito bom!

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É a sua voz em off que adentra ao seu escritório e nos transporta a uma imagem do passado em 1940 para anunciar a participação dos alemães na trama que se desencadeia. A história do Museu do Louvre se insere na historicidade europeia. “Quem seríamos nós sem os museus?” “Quem seria eu sem conhecer ou ver os olhos daqueles que viveram antes de mim?” Estas indagações e outras sugeridas conduzem o pesquisador/diretor/roteirista ao questionamento da arte como uma ciência que pudesse levar ao conhecimento do futuro… E portanto, próprio de seu estilo, transcende limites ao fazer uma “premonição” aos dois personagens, Jacques Jaujard, diretor do Louvre (Louis-Do de Lencquesaing); e o historiador alemão Wolff Metternich (Benjamin Utzerath), revelando “o futuro” destes…

O filme convida a uma reflexão sobre cultura, comportamento… “Por alguma razão, os Europeus desenvolveram o desejo, a necessidade, de pintar pessoas, rostos… Por que essa preocupação é tão importante para os Europeus, enquanto outros povos, tais como os Muçulmanos, não têm nenhuma?”

Pergunto, como se revela a arte e cultura na sua cidade/país? Há uma preocupação política e social a respeito? E…

Ana Muniz

Figuras: Frames do filme. Citações: do próprio filme.

Francofonia: Louvre sob ocupação (original “Francofonia”). France | Germany | Netherlands, 2015, 88 min, Cor e preto e branco. Documentário e drama ou Docudrama. Direção e Roteiro: Alexander Sokurov. Atuam: Louis-Do de Lencquesaing, Benjamin Utzerath, Vincent Nemeth e outros.

2 comentários em “Filme Francofonia, de Alexander Sokurov

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  1. Obrigada por responder, Claudia. Ótimo esclarecimento. De forma geral, não gosto de generalizações, e você foi bem no ponto. Muito bom! Mas, a respeito dessa questão religiosa específica, eu não sabia, daí você colaborou com mais esse entendimento.

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  2. Apenas o seu texto me fez ter vontade de assistir a esse filme. Quase não li, mas você disse que era bom e arrisquei. Bom mesmo. A respeito do penúltimo parágrafo, acho que tem a ver com a religião islâmica a escassez de retratos, pois entre os mais radicais, a interpretação do Alcorão os leva a acreditar que o retrato de um profeta, qualquer que seja, é ofensivo por talvez diminuí-lo e que mesmo retratos de pessoas comuns devem ser evitados. Mas sei que não são todos os islâmicos que proíbem essas imagens. Acredito que seja uma generalização dizer que muçulmanos não pintam retratos.

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