O que faz alguém muito próximo, íntimo de uma pessoa, avisar que vai “ali” e não voltar mais? Tal qual o caso de quem saiu para comprar cigarro… As razões são múltiplas; pelo menos, pensando na razão de quem comete a ausência. O que leva pessoas a pensarem só em si e não também no outro? Que sentimento é esse que toma conta de alguém que em determinado instante se acha “cheio de razão”, a ponto de quebrar laços afetivos e enveredar ao rumo do estranho, achando que este é o lugar seguro? O que o convence? O que o torna indiferente?
Ainda que o filme aponte sinais ambíguos de doutrinação, isto é, pessoas que favorecem a algum interesse por persuasão, Almodóvar se inclina às questões relacionadas à família: Desta vez, a mãe, personagem recorrente em sua obra, é aquela que sofre por uma ausência injustificável…
O que supor de uma pessoa que diz que “A profissão de uma mulher é sua família e, se quer mantê-la unida, o melhor que tem a fazer é ficar em casa”. O que pensar se a dona desta frase é uma mulher? Embora sejam questões culturais, é praticamente certo que haja muita influência masculina neste pensamento. A mulher seguiu por muito tempo padrões estabelecidos pelo homem, mesmo que contrários à sua vontade. Daí, algumas, com o tempo, se rebelarem para seguir seus sentimentos e vontades próprias…
Os primeiros 5 minutos do filme revelam uma personagem enigmática, e começamos a j
untar as peças para compor a história que vem através da memória da personagem, interpretada por Emma Suárez (Julieta).
Aos 50 minutos o tempo interno da personagem sofre uma alteração, evidenciado simbolicamente através dos ponteiros do relógio, algo se rompe, que vai interferir no desenrolar da narrativa. A trama, que foca no convívio familiar entre mãe e filha, segue o curso da dramaticidade até que os pontos de desenlace sejam alcançados.
Ausência, medo, culpa e sobretudo amor, é o que envolve este drama de Pedro Almodóvar.
Curiosidades:
1. As obras da artista plástica da ficção, Ava (Inma Cuesta), são de fato do escultor espanhol Miguel Navarro, cujas peças são de propriedade de Pedro Almodóvar.
2. Alguns escritores indicam a leitura dos contos de Alice Munro, “Chance”, “Soon” e “Silence”, sugerindo uma compreensão maior do filme… Será mesmo, Almodóvar?
Ana Muniz
Ana, adoro os filmes do Almodóvar! A questão maior que fica pra mim é: A relação mãe e filha, sempre conflituosa.
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Verdade, Regina Gagliardo. É a vida que diz…
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Lembrei de “Pão com Tulipas”, mas naquele caso é a mãe que decide desaparecer da família depois de ter sido deixada para trás. E seguimos a rota da mãe. Aqui acontece o contrário, a mãe fica e não sabemos o que acontece com a filha, o que torna a situação bem mais angustiante. Mas você disse que há desenlace… ufa!!
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Verdade, Claudia, a situação que fica a mãe é indesejável… Eu não vi o filme que mencionou… E assim vamos trocando experiências…Obrigada pela presença. Beijo grande! Ah, sim, o desenlace…
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