Instigante contexto acolhe esta fantasiosa história de amor. Ela se passa em um clima controverso do ambiente militar e militarizado e sigiloso de um grupo de americanos em plenos anos 1960. Mais parece um conto de fadas que dialoga com o real.
Fui seduzida pelo filme quando observei a protagonista, uma faxineira e outra coadjuvante de um centro de pesquisa aeroespacial americano em pleno período da Guerra Fria.
É chamado de Guerra Fria o evento ocorrido a partir do final da II Grande Guerra, quando intensificaram as disputas entre Estados Unidos e URSS pela hegemonia político-econômica mundial. E justamente essa é a intriga criada no pano de fundo do filme A Forma da Água.
Será que o filme abrange a questão de quem teria começado a Guerra Fria? Fiquei em dúvida quando percebi a questão dos bolos. Bem sutil?
Onde os bolos aparecem? Logo no início tem o primeiro. Na prancheta do pintor. Um bolo vermelho. O segundo aparece logo a seguir: Um bolo branco com algo azulado acima, faltando uma fatia. As bexigas coloridas junto ao banco contêm também as cores do bolo. Seria uma atitude afirmativa que aponta para a questão das cores que se relaciona mais com América do Norte do que com a antiga URSS, à qual é dada a cor vermelha? É o diretor e roteirista que está nos comunicando a sua versão da história que acolhe a fantasia. Enquanto isso, a personagem Elisa, que surge junto com imagens oníricas vai protagonizando as ações.
Ela é uma mulher sonhadora, romântica, que cobiçou o par de sapatos vermelhos na vitrine, e depois pregou os olhos no bolo branco que o homem segura, sentado no mesmo banco. Por um rápido instante, este homem que porta o bolo fica em primeiro plano, ao levantar para entrar no ônibus. Nada é por acaso. São as sentenças do cinema.
Bem, a história do bolo continua. No filme.
A ficção tem a intenção de aproximar do real nas falas também, por exemplo, quando o artista ao olhar para a televisão comenta sobre Alice Faye (1915-1998). De fato, foi uma atriz que esteve no ápice da carreira entre 1930 e 1940.
Obviamente é uma história muito bem construída. Observem o áudio. O barulho da sirene, quando Alice acorda, vai ser explicado por Giles, seu amigo e vizinho. Como o tempo das ações decorre naquele intervalo da noite, a partir do acordar e da saída da faxineira à rua para o trabalho, o caminhão dos bombeiros atravessa a tela mostrando o agente do ruído que perpassa pelas ações. Isso torna a cena mais crível e nossos sentidos são mais aguçados para embrenharmos pela história. Dentro dessa sequência o roteiro mostra a situação social da personagem: Ela mora de aluguel. Assim, temos dados que reforçam a continuidade do momento, de um ponto a outro do filme. Como se não houvesse interrupção, devido a uma montagem exata.
Outro dado a respeito da construção é a apresentação do marido por Zelda, amiga e colega de trabalho de Elisa. Ela insiste em dar informações a respeito dele. Mais adiante, ele terá uma função que é pontual e justifica o falatório.
Mais ou menos aos 30 minutos, o filme se volta para o Strickland, o segurança cheio de segundas intenções, e apresenta o dia a dia de uma família americana de Baltimore. Esta sequência e outras vão se somar e contar este relato que inclui partes que mostram preconceito racial, homofobia, assédio. A espionagem russa também está presente e atuando intensamente entre os americanos, que inclui um modo colaboracionista junto aos que são contra as atitudes daqueles.
Os bons cineastas não abandonam a referência à história do cinema em seus filmes. Guilhermo del Toro vê nessa época (América/Anos 1960) a decadência das salas e a luta de seus proprietários para atrair o público. Enquanto as vitrines estão repletas de televisores em preto e branco representando os novos avanços tecnológicos.
Por outro lado, o quadro de Giles vai representar todo um passado que querem deixar para trás, que se soma ao saudosismo presente no suspirar de Elisa ao ver a cantora na TV. A pintura da família feliz e o bolo metafórico com a frase “O futuro está aqui!!” revela cunho político. Idealismo. (Naquela época) O futuro está onde?
O Brasil está presente nas entrelinhas, através da América do Sul e também de Carmem Miranda. Claro que sabemos dos olhos dos capitalistas que já convergiam para cá. É praticamente óbvio que o histórico e a ficção estivessem referindo ao Brasil como o país do futuro, observando as falas e a música que sobe e escutamos “Chica Chica Boom Chic”, na voz de Carmem Miranda. Mas, neste ambiente fantasioso, o que ressalto é a relação de amizade entre os três personagens, Elisa, Giles e Zelda. Além da belíssima relação amorosa criada para Elisa e o estranho da água.
É isso. Salve os amigos!
Ana Muniz
=> Oscar 2018? Sim. Quantos? Não sei. O filme é excelente, mas preciso ver os outros.
A Forma da Água (original The Shape of Water), EUA, Fantasia, Drama. Adaptação. 2h 2min, 2017. Diretor e escritor: Guilhermo del Toro. Roteiristas: Guilhermo del Toro, Vanessa Taylor. Atuam: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Doug Jones, entre outros.
Que análise bem feita, impecável! Mostra o quanto há para enxergar além próprio enredo. Obrigada!
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Obrigada pela leirura, Clau Ricci. Abraços!!!🙂
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