Ao acompanhar os relatos da senhora Ninny, 80 e poucos anos, me lembrei imediatamente de alguns autores, os quais em suas obras falam de narradores e memória. Um deles, Walter Benjamin, que tanto nos diz que resumir ou traduzir para nosso interesse aqui seria pobre demais, mas, arrisco em mencionar algo que ele deixa sobre estas teias que a imaginação transcreve através da memória e que revelam retalhos de vidas. Segundo Benjamin, no ensaio O Narrador (1986), primeiro os fatos transvestidos em memória são introjetados para dentro do narrador, que a seguir os coloca em narrativa transmitindo as experiências. Outra que me lembro é Ecléa Bosi, que definitivamente valoriza a história das pessoas velhas em seus livros, e ressalta que quem conta a história faz a conexão entre o passado e o presente permitindo a fruição do vivido a quem ouve.
A presença da memória no filme Tomates Verdes Fritos está evidente na narrativa de Ninny. Ela conta a Evelyn algo que ela viveu. Como coadjuvante ou protagonista? Mesmo tendo vivido aquela história, no momento em que passa a contar ela ganha o ponto de vista de quem conta. São as subjetividades. A intenção do filme não é fazer história, mas a de contar a história daqueles personagens ficcionais. Talvez nos passar lições de vida. E assim, o relato da memória neste filme ganha uma função, a de provocar um efeito de transformação, de ser exemplo que facilite as intenções de Evelyn. E talvez a nossa.
O filme de Jon Avnet tem a sua direção que narra através da câmera, dos cortes temporais e da própria direção de atores, e tem a narrativa dentro da narrativa revelando duas histórias que vamos conhecendo em paralelo. Uma transcorre como se fosse hoje ou no ano de sua produção, início de 1990, enquanto a outra remete a personagens que viveram há décadas. Na verdade, a segunda história começa nos anos 1920 e passa aos anos 1930, enquanto a primeira seria nossa contemporânea.
De fato, a história em que Evelyn se espelha para mudar de comportamento aconteceu há mais de cinquenta anos. Assim, o filme mostra um filme que se passa dentro dele. O real estaria na parte de Evelyn e suas relações e a ficção o que se passa na época de Idgie. Evelyn tira da ficção lições para superar sua vida que não anda bem. No entanto, o que é ficção e o que é real? A resposta está nos livros de história, mas, podemos pensar que inclui uma postura ética, conforme aprendemos. Porém, este filme não tem um compromisso histórico, e assim, a história que conta Ninny pode ser real ou não, pode ser apenas uma história inventada por ela. Mas, é contada de tal forma que acreditamos.
Evelyn, começa o filme comendo chocolates e no desfecho ela come produtos naturais. Não parece que ela quer nos passar umas dicas? Evelyn, que pode representar muitas mulheres de qualquer época, vive em um casamento que já se tornou morno, ou pior. A preocupação dela é reacender a relação, mas, além de outras tentativas em busca de solução, a que fez efeito positivo, vem através dos resultados que ocorrem após conhecer Ninny. As duas começam uma amizade que evolui na medida em que uma apresenta à outra motivos para se transformar. Ou melhor, Evelyn se envolve com as narrações de Ninny e as acompanha como se fossem episódios de uma série, com ênfase nos momentos instigantes que a deixam curiosa (Senhora, me diga, Idgie matou Frank?). Ela se envolve tanto, mas, no sentido de tirar proveito para si, de encontrar respostas que correspondam com a sua realização pessoal.
Por outro lado, não sei se estou certa, mas, consigo pensar em alguma semelhança entre Idgie, jovem, ousada, astuciosa, livre, generosa, para ficar em poucos adjetivos, e Ninny, idosa, ousada, livre, generosa.
E ainda, a cara de Ninny no final do filme me instiga a questionar: Qual é a metáfora que Ninny representa?
Ana Muniz
Obs. Este filme vale a pena. Ressalto que é forte as questões de racismo; muito importante observar os comportamentos.
Imagens: Frames.
Tomates Verdes Fritos (original Fried Green Tomatoes), 1991, 2h 10 min, drama. Direção Jon Avnet. Adaptado do romance de Fannie Flagg. Roteiro: Fannie Flagg e Carol Sobieski. Atuam: Kathy Bates, Mary Stuart Masterson, Mary-Louise Parker, Jessica Tandyve outros.
Obrigado pelo texto,adorei!
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